Político xenófobo vira peça-chave na Holanda
Eleições dão a Geert Wilders, que propõe banir o Alcorão e taxar o véu islâmico, poder inédito e radical da extrema direita quer lugar no governo
Em campanha para as eleições na Holanda, realizadas na quarta-feira, Geert Wilders, conhecido por ser abertamente hostil aos imigrantes, apresentou uma série de propostas extremas, incluindo a proibição do Alcorão e um imposto sobre o uso do véu islâmico pelas mulheres.
Perseguido por comparar o Islã ao nazismo, Wilders exigiu um cargo no novo governo depois que seu Partido para a Liberdade tornou-se a terceira maior força da política holandesa.
O Partido Liberal, de tendência conservadora (ou seja, defensor medidas de austeridade para conter o déficit holandês), obteve 31 cadeiras, ante 22 na última eleição. Os liberais superaram o Partido Trabalhista, que anteriormente tinha 33 cadeiras e ficou com 30.
Mas o terremoto que abalou a política holandesa com o assassinato em 2002 de Pim Fortuyn - político independente crítico da imigração - também provocou ecos nessas eleições. O partido de Wilders mais que dobrou o número de seus representantes para 24, fazendo com que um cargo no gabinete para o político mais controvertido da Holanda torne-se uma possibilidade real.
Vários analistas disseram acreditar que Wilders conseguirá o que pretende sem muito esforço, manifestando seu desejo de tornar-se um político integrado ao círculo que controla a política holandesa.
Contudo, se esse crítico aberto do Islã ingressar no governo holandês, assinalará um momento significativo para a política europeia, semelhante ao de 2000, quando o candidato da extrema direita Jörg Haider aderiu a uma coalizão austríaca, provocando um boicote europeu de contatos políticos com Viena.
"Holandeses escolheram mais segurança, menos criminalidade, menos imigração e menos Islã", disse Wilders quando foram anunciados os resultados na madrugada de quinta-feira. "Gostaríamos de governar. Não acredito que os outros partidos possam nos ignorar."
Governabilidade. Na quinta-feira, Wilders, que vive cercado de guarda-costas 24 horas por dia por causa das ameaças de morte, marcou mais um ponto a favor do seu ingresso no governo, ao afirmar que fará um acordo com a oposição para elevar a idade da aposentadoria. A proposta é uma espécie de bandeira dos liberais para conter os gastos do governo.
O sucesso de Wilders destaca as dificuldades enfrentadas pelos políticos de toda a Europa diante do crescimento dos radicais. Se os extremistas forem incluídos, será preciso aceitar suas políticas deploráveis. Mas, por outro lado, se forem excluídos, aumentará o apelo deles para o voto de protesto.
Esse dilema teria sido impensável dez anos atrás na Holanda, quando o país era tão conhecido pela obtusa previsibilidade consensual de sua política, quanto por sua abundância de canais.
Mas o assassinato, em 2002, de Fortuyn por um ativista do movimento pelos direitos dos animais convulsionou o país. Dois anos mais tarde, depois de fazer um documentário que criticava violentamente o Islã, Theo Van Gogh também foi morto em plena luz do dia.
Dick Houtman, professor de Sociologia Política da Universidade Erasmus, em Roterdã, disse que Wilders conseguiu se firmar graças ao legado de Fortuyn, evitando com sucesso a linguagem abertamente racista dos políticos de extrema direita de outros países, e destacando questões como liberdade de expressão, igualdade das mulheres e direitos dos gays.
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