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Proposta controla a indústria, mas não impede o desmate

17 de março de 2010 | 0h 00
Herton Escobar - O Estadao de S.Paulo

Análise:

As carvoarias e o comércio do carvão produzido dentro de seus fornos são o lado mais nefasto da destruição do Cerrado. A prática equivale a um tráfico de cadáveres.

A vegetação nativa é cortada, queimada, e seus restos mortais, vendidos como comida para alimentar as chamas dos fornos das siderúrgicas. No lugar dela, entram pastos e plantações.

Por mais sujo que seja, porém, muito desse carvão não é ilegal. No Cerrado, fazendeiros têm o direito de desmatar até 80% de suas terras - o inverso da Amazônia. Se o desmatamento é autorizado, então o carvão produzido como resultado dele também é legal. O mais correto, então, seria permitir o comércio do carvão de origem legal e combater apenas o ilegal.

Mas quem é que vai separar o joio do trigo? Claro que o esforço de proteger o Cerrado deve ser aplaudido. Mas cabe perguntar: se a atividade é tão nociva, por que dar prazo até 2013 para que ela seja extinta?

É importante observar, também, que a produção de carvão não é, tipicamente, uma causa primária do desmatamento. Na maioria dos casos, trata-se de um aproveitamento da madeira que foi cortada para a abertura de pastos ou plantações.

Nesse caso, se as autoridades continuarem a dar autorizações de desmate, a proibição proposta pelo MMA terá impacto sobre a siderurgia, mas não sobre a conservação. Pois o Cerrado continuará a ser desmatado. O carvão apenas vai para outro lugar. Ou os cadáveres, em vez de queimados, serão largados no campo para apodrecer.