
Quando vai cair a ficha?
Se a Ferrari, neste momento, ainda sente orgulho do que fez no GP da Alemanha é porque quem a dirige não está à altura da imagem criada pelo comendador Enzo Ferrari. Não estou desprezando antecedentes da F-1, a maioria deles na conta-débito da própria equipe italiana, embora outras tenham jogado sujo da mesma forma ao longo da história. O fato é que da forma como aconteceu no GP da Alemanha eu nunca tinha visto até hoje. Também não tínhamos no passado acesso a diálogos tão esclarecedores.
Ouvimos, primeiro, a reclamação de Alonso fazendo pressão para que a equipe desse uma ordem a Felipe. Depois, veio a ordem, muito clara, embora com o cuidado de não usar uma expressão comprometedora. O que a gente não conhece ? mas a FIA tem gravado ? é tudo o que se passou entre a pressão de Alonso e o golpe final na palavra do engenheiro Rob Smedley. Por exemplo: quantas vezes o engenheiro do Felipe precisou dar o mesmo recado antes de entrar no rádio daquela forma pausada e pedindo confirmação ao piloto de que a mensagem havia sido bem entendida?
Na época de Rubinho com Schumacher era mais fácil aceitar. Todo mundo sabia que foi Schumacher quem montou o staff técnico e tinha toda a equipe nas mãos. Quando Rubinho saiu, a situação seria mantida com Massa e Schumacher sempre que necessário. Mas apenas uma vez, em Indianápolis, houve troca de posições no pit stop, sendo que na Malásia a equipe permitiu Massa chegar em 5.º, com Schumacher em 6.º. Desde a aposentadoria do alemão, as regras na equipe eram outras. Cansei de ouvir do pessoal da Ferrari que jogo de equipe só existiria na reta final da decisão do título. Isso se confirmou na corrida final de 2007 ? Felipe abriu mão de uma vitória em casa para garantir o título a Raikkonen. No ano seguinte, na China, penúltima do ano, Raikkonen entregou o 2.º lugar a Massa, que estava na briga com Hamilton.
Nada a reclamar. Este é o único caso em que se pode entender o jogo de equipe. Mas a Ferrari tem no seu histórico uma coleção de atitudes antiesportivas. O próprio Niki Lauda, que domingo passado definiu o episódio como "uma vergonha", recebeu esta mãozinha da Ferrari quando dividia a equipe com Clay Regazzoni em 1975 porque tinha perdido o campeonato anterior para Emerson Fittipaldi (McLaren) ao ter permitido briga aberta entre os seus dois pilotos. A Lotus também tinha a mesma política, e em 78, prejudicou Ronnie Peterson ao começar muito cedo a favorecer Mario Andretti, que terminou o ano como campeão. Ironicamente Peterson morreria naquele ano.
Em outros casos que me lembro, sempre fazendo exceção à Ferrari de Schumacher, o jogo de equipe acontecia já perto da decisão do título. A grande maioria na última corrida do ano. Casos de exceção, em que o trabalho de equipe é aceitável. Em outros, abominável. Neste de Hockenheim, indefensável. Por mais que a Ferrari se defenda com base na pontuação de Alonso e Felipe no campeonato (ainda faltam nove corridas). Ou, pior ainda, tentando negar que as palavras cuidadosamente calculadas do engenheiro Rob Smedley significavam uma ordem.
Recebi e-mails de brasileiros que assistiam à corrida na TV ou mesmo em Hockenheim, em companhia do filho, e que sentiram naquilo um estímulo à desonestidade. Só espero que os homens da Ferrari não demorem muito para compreender o tamanho do prejuízo causado para uma marca criada à imagem da bravura, da garra. Jogaram fora uma chance de ouro de fazer o mundo ver uma vitória histórica de um piloto que, exatamente um ano atrás, tinha sofrido um gravíssimo acidente e, graças ao apoio recebido da Ferrari, voltava ao topo. Se não perceberem por si mesmos, espero que eles venham a sentir o peso do erro com uma punição drástica do Conselho Mundial. A FIA deve isso à Fórmula 1.
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