Ir para o conteúdo
ir para o conteúdo
 • 
Você está em Opinião
Início do conteúdo

Reação exagerada

04 de setembro de 2013 | 2h 21
O Estado de S.Paulo

Faz muito bem o governo brasileiro em reagir de maneira enfática à revelação de que o serviço de inteligência americano bisbilhotou a presidente Dilma Rousseff. É preciso cobrar explicações claras do governo dos Estados Unidos e deixar evidente a justa indignação gerada por esse tipo de atitude. No entanto, o governo foi muito além disso, movido pelas idiossincrasias da presidente - que mandou dizer aos quatro cantos que está furiosa e ameaçou cancelar sua visita de Estado aos Estados Unidos, programada para outubro, caso as desculpas americanas não lhe agradem.

Trata-se de um exagero. Se não considerar satisfatórias as explicações do presidente Barack Obama - e é difícil imaginar alguma que seja -, o que Dilma pretende fazer em seguida, além de suspender a viagem? Retirar seu embaixador em Washington? Congelar relações?

Uma escalada que leve a qualquer uma dessas consequências, nesse caso específico, extrapola a prudência diplomática. Pois, se é fato que os Estados Unidos foram muito além do razoável na relação com um país amigo, com o qual mantêm laços cordiais desde sempre, é igualmente pertinente salientar que a relação brasileira com os americanos não pode ser medida por esse incidente - que, embora grave, deve ser analisado em perspectiva.

A espionagem é quase tão antiga quanto o mundo civilizado, está disseminada por toda parte e, claro, não poupa amigos e aliados. A CIA, o mais conhecido serviço de inteligência dos Estados Unidos, atua no Brasil praticamente desde a época em que foi fundada, em 1947. Isso não é segredo para ninguém nem jamais afetou a relação entre os dois países.

O aparato americano de informações não difere, a não ser talvez pelo tamanho e pelos recursos envolvidos, de seus congêneres em outros países. Há casos em que mesmo serviços relativamente menores, como o de Cuba, chegam a ser mais eficientes que o americano. Xeretar e-mails e interceptar mensagens de celular são ações que fazem parte do catálogo de serviços oferecidos pelas agências de espionagem em boa parte do mundo.

É por essa razão que diversos países cujas comunicações foram alvo da malha de espionagem americana, conforme revelado pelo ex-analista de inteligência Edward Snowden, reagiram de maneira meramente simbólica.

A Alemanha, um dos principais afetados - e que é conhecida pela rigorosa proteção da privacidade de seus cidadãos -, cancelou um acordo, datado de 1968, que permitia a Estados Unidos e Grã-Bretanha realizarem operações de vigilância para garantir a segurança de suas tropas estacionadas no país. Na prática, esse acordo já não tinha nenhum valor. Foi apenas uma forma de protestar, pois, como disse a chanceler Angela Merkel, "grampos não são coisas que amigos fazem".

É evidente que os Estados Unidos passaram dos limites em nome de sua segurança após os atentados do 11 de Setembro, violando tratados internacionais e mesmo os direitos de cidadãos americanos no próprio país - e, agora se sabe, de cidadãos em outras partes do mundo.

Ademais, monitorar telefonemas e e-mails da presidente do Brasil não tem nada a ver com o combate ao terrorismo. Portanto, nenhuma crítica a esses procedimentos será despropositada.

No entanto, o tom usado pelo governo brasileiro e as ameaças de passar da retórica à ação nesse contencioso com os Estados Unidos indicam uma estratégia diplomática pouco inteligente, que parece respeitar muito mais os interesses partidários e ideológicos do lulopetismo do que uma efetiva política de Estado.

Se estivesse mesmo interessado em defender princípios democráticos, o governo não cogitaria de aliar-se à China e à Rússia, que a todos espionam sem nenhum escrúpulo, para fazer frente à ofensa americana.

Com sua reação, Dilma ganha pontos com um eleitorado que ama odiar os americanos. A imagem de mulher durona, determinada a defender os interesses brasileiros contra o "mal" representado pelos Estados Unidos, é um poderoso tônico eleitoral.




Estadão PME - Links patrocinados

Anuncie aqui

Siga o Estadão




Você já leu 5 textos neste mês

Continue Lendo

Cadastre-se agora ou faça seu login

É rápido e grátis

Faça o login se você já é cadastro ou assinante

Ou faça o login com o gmail

Login com Google

Sou assinante - Acesso

Para assinar, utilize o seu login e senha de assinante

Já sou cadastrado

Para acessar, utilize o seu login e senha

Utilize os mesmos login e senha já cadastrados anteriormente no Estadão

Quero criar meu login

Acesso fácil e rápido

Se você é assinante do Jornal impresso, preencha os dados abaixo e cadastre-se para criar seu login e senha

Esqueci minha senha

Acesso fácil e rápido

Quero me cadastrar

Acesso fácil e rápido

Cadastre-se já e tenha acesso total ao conteúdo do site do Estadão. Seus dados serão guardados com total segurança e sigilo

Cadastro realizado

Obrigado, você optou por aproveitar todo o nosso conteúdo

Em instantes, você receberá uma mensagem no e-mail. Clique no link fornecido e crie sua senha

Importante!

Caso você não receba o e-mail, verifique se o filtro anti-spam do seu e-mail esta ativado

Quero me cadastrar

Acesso fácil e rápido

Estamos atualizando nosso cadastro, por favor confirme os dados abaixo