Registros cálidos, envolventes e intensos são obras-primas
Composições de Gabriel Fauré e César Franck recebem magnífica interpretação da pianista ao lado do Fine Arts Quartet
Há dois Gabriel Fauré (1845- 1924). O primeiro é o conhecido do grande público, pelo Réquiem e a Pavane; o outro é amado pelos músicos e em círculos restritos por causa do ciclo La Bonne Chanson, à Ballade opus 19, noturnos e barcarolas para piano; e, sobretudo, à música de câmara. Pois foi com esta última que ele "anunciou" a música do futuro, a música moderna. Ao lado das mélodies, a produção camerística constitui, sem dúvida, sua mais importante contribuição à música. E os dois quintetos para piano e cordas ocupam lugar privilegiado neste domínio. O primeiro foi escrito em 1903, quando sinais de surdez o empurraram, como ele mesmo diz, para o "sonho interior"; o segundo é sua derradeira obra camerística, longamente gestado e concluído em 1921. Inteiramente surdo, presenciou a estreia em 21 de março daquele ano. "Após o último acorde", conta seu filho Philippe, "todos se levantaram. O público gritava em direção à grande tribuna onde estava meu pai, que, aliás, não ouviu nada. Avançou sozinho, balançando a cabeça. Parecia frágil, magro e cambaleante em seu pesado casaco."
A leitura do Fine Arts Quartet e Cristina Ortiz é envolvente. Cálida e ao mesmo tempo emocionalmente intensa. Se o primeiro quinteto já é obra de elevada qualidade, o segundo é autêntica obra-prima, que recebe uma magnífica interpretação, sobretudo de Cristina: empenhada como sempre, mas integrada ao quarteto com uma impressionante fluidez. No Scherzo, o piano quase gaiato de Cristina foge dos pizzicati das cordas; no Andante, piano e cordas associam-se num diálogo de infinita ternura; e o Finale Allegro molto, num compasso ¾, dá ao piano o comando dos ritmos dançantes e espírito lúdico que determinam um surpreendente final feliz. É feliz também, aliás, a coincidência que faz a estupenda gravação do segundo quinteto estar disponível esta semana nas bancas para o ouvinte brasileiro.
Mas, como a própria Cristina disse ao Estado, as gravações dos quintetos de Fauré serviram para ela e os músicos do Fine Arts se conhecerem melhor. O clímax, sem dúvida, ocorre no quinteto de César Franck (1822-1890). Belga radicado em Paris, escreveu apenas três peças camerísticas, se deixarmos de lado três trios juvenis. Todas essenciais. Todas obras-primas. Duas estão neste notável CD que com justiça vem recebendo calorosa recepção internacional nas últimas semanas. Ficou de fora apenas a famosa sonata para violino e piano que inspirou Proust a inventar a célebre Sonata de Vinteuil do ciclo Em Busca do Tempo Perdido.
Acontece, revela Cristina, que não se podia atingir a marca de 80 minutos para viabilizar o registro do quarteto e do quinteto num só CD. Como o quarteto sozinho tem quase 44 minutos, "Ralph Evans (o primeiro violino do Fine Arts) tocou ansioso do começo ao fim, de olho no relógio". Mas ele não precisava preocupar-se, diz Cristina. "Meus movimentos lentos não são melados demais, Andante para mim é Andante mesmo." O CD chegou a 79"19 - com uma margem de 41 segundos para os fatais 80 minutos.
A estrutura cíclica - o mesmo tema permeia a obra em todos os movimentos, marca registrada de Franck -, em vez de "prender", acaba "liberando" a execução. No quarteto, é excepcional a integração entre os músicos do Fine Arts; e no quinteto, o piano paira com uma enorme liberdade sobre o discurso mais rígido das cordas. Antológico o movimento lento, con molto sentimento. No conjunto, um registro difícil de ser superado.
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