RELATO DE UMA PAIXÃO RADICAL

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

15 Fevereiro 2013 | 02h11

Em De Coração Aberto (tradução literal de À Coeur Ouvert), a diretora Marion Lane joga com o duplo sentido da expressão. Diz-se que uma cirurgia é de coração aberto quando expõe o órgão vital. Mas esse órgão é também aquele que, ancestralmente, simboliza o amor, a paixão humana. Os dois personagens são apaixonados e também cirurgiões cardíacos - a francesa Mila (Juliette Binoche) e o latino-americano Javier (Edgar Ramírez).

Mila e Javier vivem juntos há dez anos e trabalham no mesmo hospital. Aliás, na mesma equipe. Ele é um craque da cirurgia, mas tem um problema complicado para sua profissão (aliás, para qualquer outra): bebe demais. Ela, depois de muitos anos, engravida, mas não tem certeza de querer o bebê. A relação se deteriora. A saída talvez seja voltar para a América do Sul, para a selva (jungle), como se diz, despudoradamente, no filme. Enfim, é ainda assim, não tenhamos ilusões, que os europeus nos veem. Aqui é a selva.

Preconceito à parte, o filme é bem interessante. E o é, em especial, pela qualidade do elenco, em especial dos dois protagonistas. De Binoche, o que mais dizer senão que é uma das maiores atrizes contemporâneas, aquela com quem todos, até o iraniano Abbas Kiarostami, desejam trabalhar? Ramírez é um nome relativamente novo no pedaço, mas quem o viu interpretar Carlos, o Chacal, no magnífico filme de Olivier Assayas, sabe que é uma força da natureza. Transmite uma intensidade rara aos seus personagens. E se não encontrou (e dificilmente irá encontrar) outro tão complexo quanto Carlos, tem brilhado em tudo o que tem feito. Vive um papel menor, mas que não se esquece, em A Hora mais Escura, de Kathryn Bigelow, que também estreia hoje. E enche de vitalidade o seu complicado e complexado Javier neste De Coração Aberto.

De resto, Ramírez sabe que encara um personagem ingrato e, por isso mesmo, precisa tirar seus coelhos da cartola. Javier é um homem de talento, vindo de um país periférico para vencer na França (Deus sabe como isso é complicado), tendo de superar a barreira do idioma, preconceitos e a desconfiança sobre sua competência. Com tudo isso contra, não precisava também cultivar o vício do álcool que, se traz problemas para qualquer um, torna-se dramático em certas profissões. Certamente cirurgia é uma delas. Por acaso, outro filme em cartaz, O Voo, foca na questão da dependência de álcool em outra profissão de risco total, a de piloto de avião.

De qualquer forma, De Coração Aberto é aquele tipo de filme sobre a assimetria do casal. Se Javier revela-se no fundo uma personalidade infantil, Mila será o porto seguro, o ponto de equilíbrio. Numa história simplória, isso se resolveria por aí. Marion, diretora europeia, resolve complicar um pouco as coisas, como verá o espectador. E, portanto, aproxima-se mais do real, sem ceder à tentação recorrente do cinema contemporâneo que é tornar rasas todas as coisas, simplificando e empobrecendo a experiência humana. Isso implica, entre outras coisas, e nessa história em particular, em não ver um como vilão e a outra como salvadora. Todos têm suas razões e sua complexidade interna.

Se algumas soluções podem ser questionadas (como o recurso ao onírico, quebrando a pauta realista da história), no todo é um belo filme. Intenso e dilacerado, feito de peito aberto.

JJJJ ÓTIMO

JJJ BOM

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