Relato dos caminhos de um povo
Cemitério de Vila Mariana serve de ponto de partida para pesquisa sobre chegada de judeus a São Paulo
Os Feffer, os Klabin, os Kopenhagen, os Lafer, os Tabakow, os Teperman e outros sobrenomes ilustres da colônia judaica que emigraram para o Brasil de diversas regiões da Europa, a partir das últimas décadas do século 19, repousam juntos no Cemitério Israelita de Vila Mariana. Estão entre os primeiros ali sepultados, numa colina arborizada onde mais de 5.400 túmulos registram a história de uma comunidade que, após fugir de preconceitos, de perseguições e da morte em sua pátria de origem, se refugiaram numa terra distante para refazer a vida.
Chegaram pobres e sofridos, atravessando 40 dias de mar em porões de terceira classe de navios, sem imaginar que futuro iam enfrentar. "Sem um mapa, poucos na Bessarábia conseguiriam dizer onde era o Brasil", informam os autores do livro Os Primeiros Judeus de São Paulo, acurado trabalho dos historiadores Paulo Valadares e Guilherme Faiguenboim, ilustrado por fotos de Niels Andreas. A Bessarábia, que hoje corresponde à Moldávia, fazia parte do Império Russo, a cujo monarca, o czar Nicolau II, os judeus atribuíam na época a origem de todos os seus males.
Cerca de 5 milhões de judeus viviam no Pale (Pale of Settlement), território de 1 milhão de quilômetros quadrados, localizado entre a Rússia, o Império Austro-Húngaro, a Prússia e a Romênia. Viviam em relativa paz entre o Mar Negro e o Báltico até por volta de 1880, quando a maioria deles se viu forçada a emigrar. Fugiam dos pogroms, ataques sistemáticos contra sua gente e suas propriedades. Calcula-se que mais de 2 milhões de judeus deixaram a Rússia entre 1880 e 1920. "Dos que permaneceram, pelo menos a metade não sobreviveu ao regime de Stalin ou nas mãos dos nazistas de Hitler, que agiram entre 1930 e 1952", afirmam os autores do livro. Dez mil judeus migraram da Europa Oriental para o Brasil, entre 1881 e 1914.
As lápides do Cemitério Israelita de Vila Mariana testemunham tragédias e reconquistas. A discriminação, por exemplo, dos judeus alemães que eram obrigados a acrescentar Israel (os homens) e Sara (as mulheres) a seus nomes, durante um regime em que essa identificação era prenúncio de prisão, tortura e morte. Mas, em contraposição, registram o sucesso e a felicidade dos pioneiros que fizeram fortuna e fama em sua nova pátria. Lasar Segall, que nasceu em Vilna, na Lituânia, foi um deles. Genro de Maurício Klabin, o pintor tem em seu túmulo uma citação bíblica do Deuteronômio - "abençoa o seu poder e aceita a obra de suas mãos" - que atesta sua confiança em Javé.
Com preocupação didática, as primeiras páginas da obra relatam como os judeus são sepultados, revelando detalhes religiosos que ligam práticas rituais à esperança na ressurreição, prometida por Deus ao povo de Israel. A lavagem do corpo e as preces entoadas junto aos túmulos inserem-se nesse contexto. Não se trata de explicações teóricas e distantes, pois os autores ilustram o texto com exemplos próximos e identificáveis. Para descrever a matzeivá, inauguração da lápide numa cerimônia familiar, eles lembram como foi o comovente ritual em memória de Guita Kauffmann Mindlin, em 24 de junho de 2007. Além de seu marido, José Mindlin, dos filhos e netos, compareceram amigos próximos, entre os quais os ex-ministros Celso Lafer, Rubens Ricupero e Claudia Costin.
A condenação do suicídio, considerado mais grave que o assassinato, e a proibição de cremar os cadáveres, tema polêmico entre rabinos de diferentes tendências, são discutidas numa página sobre preceitos religiosos inspirados na Bíblia. Parte-se do princípio da defesa da vida e, no caso da cremação, da interpretação de que esse costume nega a ideia da ressurreição e fere a dignidade do corpo. O martírio dos judeus que se deixam matar para não serem profanados em vida é apresentado como uma opção oposta ao suicídio - louvável e meritória, portanto.
Riquíssimo em informações e recheado de imagens, o livro Os Primeiros Judeus de São Paulo registra, de A a Z, a relação de todos aqueles que estão sepultados em Vila Mariana. Se a lista dos mortos interessa particularmente aos familiares, tanto essas 188 páginas como as demais constituem um documento importante para o resgate da história de São Paulo. A obra relembra a luta enfrentada pelos pioneiros para conseguir um local onde pudessem cumprir os rituais do sepultamento judaico. A área de Vila Mariana foi doada pela família Klabin. A comunidade se concentrava, então, nos bairros do Brás e do Bom Retiro.
Com ênfase no Cemitério de Vila Mariana, que continua aberto - embora, em sua maioria, os judeus sejam enterrados atualmente no do Butantã -, o livro fala de outros cemitérios que foram relevantes para a comunidade: Chora Menino, na capital, e Cubatão, na Baixada Santista, além de dois localizados no Rio Grande do Sul e de um no Recife. No Chora Menino e em Cubatão, assim como no Cemitério de Inhaúma, no Rio, eram sepultadas as polacas, imigrantes prostitutas que, classificadas entre os impuros e os indesejáveis, eram repudiadas pela comunidade judaica. Mais tarde, seus túmulos foram transferidos para o Butantã.
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