Relatório faz duras críticas a Ban Ki-moon
Documento norueguês descreve secretário-geral como figura sem carisma, passiva e ausente
Sem carisma, observador passivo e ausente. Essas foram algumas das críticas descritas por um documento sigiloso preparado pela Noruega sobre o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. O relatório tinha como função explicar à chancelaria norueguesa o que ocorre dentro do gabinete de Ban. O documento, obtido pelo Estado, é o reflexo de uma luta já deflagrada por sua sucessão.
Em conversas reservadas, poucos são os funcionários da ONU que defendem Ban. Uma de suas falhas mais graves, segundo diplomatas, é não ter colocado a ONU no centro dos debates de questões cruciais. Na crise financeira, por exemplo, o fórum de discussões foi o G-20.
No tema ambiental, seus discursos não são notados. A ONU também está ausente dos debates sobre desarmamento e colecionou fracassos em lidar com Mianmar, Sri Lanka, Sudão, Somália, Paquistão e Congo.
O mandato de Ban - de cinco anos - termina em 2011. Normalmente, o secretário-geral é reeleito, a menos que seja tão impopular que não consiga um novo termo, como foi o caso do egípcio Boutros Boutros-Ghali, entre 1992 e 1996, execrado pela falta de ação em Ruanda e na Bósnia.
No caso de Ban, crescem as dúvidas sobre sua permanência. Ele diz que ainda não sabe se será candidato, mas seus aliados não duvidam que seu desejo seja permanecer no posto. Mas não será fácil. Pelo rodízio, o próximo secretário-geral deve ser europeu. E uma fila de candidatos já começa a se formar.
Um dos favoritos é o ex-premiê da Itália Romano Prodi. Apesar de sua oposição ao governo de Silvio Berlusconi, a ideia tem apoio de Roma - seria uma forma de garantir que Prodi não volte à cena doméstica.
Outro nome comentado é o de Helen Clark, ex-primeira-ministra da Nova Zelândia e diretora do Programa da ONU para o Desenvolvimento. Helen é uma estrela dentro da burocracia da organização. Para ser eleita, porém, os europeus teriam de abrir mão do cargo.
Segundo o relatório norueguês, no entanto, a China ainda não retirou seu apoio a Ban, principalmente para manter um asiático no cargo. Os EUA também não se pronunciaram, ainda que seja conhecida a má vontade da secretária de Estado, Hillary Clinton, com o sul-coreano.
Nos corredores da organização, todo o mundo sabe que Ban foi um escolha de George W. Bush para que a ONU tivesse um secretário-geral que não atrapalhasse as políticas de Washington - principalmente depois que Kofi Annan, ex-secretário-geral, declarou que a guerra no Iraque era "ilegal".
Em Moscou, a percepção de Ban também é negativa, mas por razões diferentes. O Kremlin o acusa de não ter trabalhado mais contra a independência de Kosovo. Outro problema seria a falta de russos em postos-chave na ONU. Já França e Grã-Bretanha não hesitariam em apoiar um novo candidato, desde que fosse um europeu.
Há, contudo, um grupo de diplomatas que afirma ser injusto culpar o sul-coreano pela falta de poder. "São os governos que decidem se um secretário-geral tem ou não poder. E, neste momento, a ideia é não dar poder à ONU", afirmou um diplomata asiático.
Fontes que trabalham com secretário-geral admitem que Ban está cada vez mais irritado com sua imagem no mundo. No memorando norueguês, o clima de tensão é confirmado. "Ban tem constantes surtos de raiva, mesmo com seus funcionários mais experientes", diz o documento.
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