Retrato dos deserdados do sonho americano
O Vinho da Juventude, de John Fante, põe em cena personagens sem rumo
Aos 21 anos, o americano John Fante (1909-1983) decidiu ser escritor. Naquele 1930 de maus ventos nos Estados Unidos, com o país atordoado pela recessão mais brutal de sua história, ele resolveu começar com força. Mandou uma carta para o editor da The American Mercury, um jornalista chamado Henry Louis Mencken, cuja assinatura - H.L.Mencken - era das mais prestigiadas do país. Fundada sete anos antes, a revista literária editada por ele tinha, entre outras qualidades, a de pagar bem pelos contos que publicava. Foram muitos os contos que o jovem Fante mandou para o severo Mencken, que recusou um por um enquanto mantinha uma intensa correspondência com seu autor, dando conselhos e indicando caminhos.
Em 1932, quando finalmente publicou um conto de Fante, Mencken recebeu uma carta com uma afirmação surpreendente - ainda mais depois de tantas recusas: "O senhor é Deus para mim, o modelo de homem pelo qual devo medir-me, agora até penteio os meus cabelos como o senhor". Foi através da The American Mercury que Fante conseguiu um certo reconhecimento e passou a vender suas histórias para outras revistas, algumas especialmente importantes. Vendeu contos para The Atlantic Monthly, Esquire e The Saturday Evening Post, que publicavam estrelas de primeira grandeza, como Ernest Hemingway ou Scott Fitzgerald. E foi graças a uma carta de Mencken que uma das mais renomadas editoras da época, a Knopf, concordou em contratar o jovem autor - mandando um adiantamento sobre futuros direitos autorais - para escrever um romance. Um belo começo para quem havia nascido numa família católica e pobre do Colorado, filho de um imigrante italiano casado com uma filha de imigrante italiano. Esse universo - a pobreza, a formação católica, ser estrangeiro num tempo de preconceitos acentuados - está no cerne de tudo que ele escreveu.
Um belo começo, a não ser por um detalhe: o exigente Alfred Knopf recusou Espere a Primavera, Bandini, e sugeriu, sem sutileza, que ele mandasse outro livro ou então devolvesse o dinheiro. Fante haveria de esperar até 1938 para ter esse livro publicado por uma editora menor, a Stackpole. A recepção do público foi apenas discreta. Em compensação, teve críticas boas, e no ano seguinte lançou Pergunte ao Pó, talvez seu livro mais importante. Em 1940 foi a vez de Dago Red, reunindo quase todos os contos que haviam sido publicados em revistas. E aí aconteceu algo insólito: Fante caiu num ostracismo profundo. Com dois romances e um livro de contos, foi ganhar a vida escrevendo para Hollywood.
Só tornaria a ser lembrado na década de 80, graças aos elogios esparramados por Charles Bukowski. Estava diabético, cego, tinham amputado suas pernas. Foi preciso esperar que alguém mais novo, admirador absoluto, emprestasse um pouco de sua popularidade para o velho mestre.
Seja como for, apesar do ostracismo, Fante influenciou boa parte dos autores mais jovens, a começar por Jack Kerouac. Depois de uma juventude desvairada, de altos consumos de drogas pesadas, a popularidade chegou quando fazia anos que, cego, ele ditava suas histórias para a mulher, Joyce, na varanda de uma casa confortável na praia de Malibu, em Los Angeles. Para trás tinham ficado os anos loucos da juventude, e também os tempos em que ele se tornou um operário padrão da indústria do cinema. O escritor esquecido foi trazido de volta à tona e ao sucesso quando Bukowski convenceu a editora que o publicava, a Black Sparrow, a relançar sua obra esgotada e publicar a produção engavetada.
O livro com os contos de Fante intitulado O Vinho da Juventude reapareceu nessa brisa. Traz o resumo de toda sua narrativa. Mostra que foi precisamente nos contos que nasceu o estilo e o universo que permaneceriam em tudo que ele escreveu. Aquele estilo que Bukowski definiu numa palavra só: natural. Uma voz íntima, que vasculha a intimidade de seus personagens, mostra sentimentos amargos, exibe vingança, amor, desesperança, uma profunda impotência diante dos azares da vida e do destino. As primeiras pinceladas daquilo que, anos mais tarde, um contista exemplar chamado Raymond Carver iria aprimorar ao extremo.
Fante foi, é verdade, um escritor menor, principalmente se comparado a alguns de seus contemporâneos. Ainda assim, deixou obras marcantes. Em O Vinho da Juventude há pelo menos meia dúzia de contos que alcançam o mesmo patamar dos grandes contistas norte-americanos do século passado. Lar, Doce Lar, Na Liga dos Campeões e Patife merecem ser lidos até o fim dos tempos.
A exemplo de vários de seus companheiros de geração, Fante imprimiu em sua narrativa a imagem dos deserdados do sonho norte-americano. Mas seus personagens sonham pequeno, vagueiam sem rumo num universo pequeno, limitado em sonhos e desejos. Oscilam entre o peso da tradição e a graça das pequenas transgressões. Nada é grandioso, nada é profundo, o mundo parece raso. E é justamente nessa descrição que Fante alcança seus melhores momentos: nada é tão raso, nada é tão pequeno como aparenta. Essa contradição se revela aos poucos. Outra característica de seus contos é a maneira com que o autor espalha uma tênue capa de ternura sobre tudo, personagens e situações, sem cair, em momento algum, em sentimentalismos banais. Basta ler o conto Um de Nós para confirmar essas características.
A tradução de Roberto Muggiati peca por excesso de correção - isso, para não mencionar as infames notas de pé de página. Ao ser tão rígido com as regras do suposto bem escrever, atravanca a fluidez da narrativa. Afinal, alguém conhece alguém que ao comunicar à mulher e filhos uma morte em família diga "Mataram-no"?
Eric Nepomuceno, escritor e tradutor, é autor, entre outros, de Antologia Pessoal (Record)
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