Revistas difundiram novos hábitos
Cuidados com bebês e crianças sofreram revolução a partir de 1920
A maternidade como é exercida hoje não tem nada de "natural" ou "intuitiva". Hábitos simples e corriqueiros - como o uso de termômetro, berço individual, quarto arejado, a prática de ferver chupetas e bicos e de dar banhos diários nas crianças - surgiram a partir de 1920. É a chamada maternidade científica, fruto de uma aliança entre mulheres e médicos, forjada nas páginas das revistas ilustradas que proliferavam na época.
Essa nova maternidade surgiu no período da Primeira República. Havia um discurso político, apoiado pelo movimento feminista, de se criar uma nova nação. O pensamento era de que a mulher deveria ser "educada" para ser mãe. E as revistas ilustradas cumpriam esse papel. "Nesse período também se construiu a carreira do puericulturista. Mais do que tratar das doenças das crianças (o pediatria tinha surgido um século antes), ele fazia um acompanhamento para garantir o desenvolvimento sadio. Esse profissional precisava se legitimar na sociedade, e isso aconteceu por meio das revistas ilustradas", diz a médica Martha Freire, que estudou o tema a partir de duas dessas publicações, Vida Doméstica e Revista Feminina. O trabalho é sua tese de doutorado em história das ciências e da saúde pela Fiocruz e se transformou no livro Mulheres, Mães e Médicos - Discurso Maternalista no Brasil (FGV Editora, R$ 35).
Em artigos muitas vezes assinados pelos médicos, como Germano Wittrock, que chegou a ser articulista da revista Vida Doméstica, as mães eram orientadas a deixar para trás antigas crenças e hábitos - como chazinhos, simpatias e amas de leite. "Antes, as mães sabiam que os filhos cresciam porque a roupa apertava. A febre era verificada com a mão. Tudo isso foi desqualificado e ferramentas científicas passam a ser usadas, como a balança e o termômetro."
Essas mudanças, porém, não foram absorvidas imediatamente. "Elas não aceitavam tudo acriticamente. Era uma relação negociada. Os médicos não conseguiram, por exemplo, acabar com a crença de que diarreia era doença da dentição."
Outro exemplo foi a distribuição de leite esterilizado. Os médicos defendiam o aleitamento materno, mas faziam concessão pois sabiam que ele já era consumido pelas crianças.
Esse caminho para a "construção de uma nova nação", em que mães eram incentivadas a educar-se para melhor cuidarem da família, também abriu espaço para a valorização da mulher. O campo de trabalho, antes restrito às atividades domésticas e ao magistério, foi estendido à enfermagem e nutrição, entre outras carreiras. "Elas conseguiram legislação que as protege, como licença maternidade, e melhores condições de educação."
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