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Revolução vai da teocracia à ditadura militar

18 de junho de 2009 | 0h 00
Danielle Pletka* e Ali Alfoneh**, The New York Times - O Estadao de S.Paulo

Logo após saírem os resultados da eleição fraudada no Irã, centenas de milhares de manifestantes saíram às ruas e era como se uma nova revolução fosse iminente. Mas, cinco dias depois, a revolta tornou-se pouco mais do que um protesto simbólico esmagado pela Guarda Revolucionária. Mas a verdadeira revolução ocorreu sem que se percebesse: a Guarda Revolucionária realizou um golpe de Estado silencioso.

As sementes desse golpe foram plantadas há quatro anos com a eleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad. E embora ele tenha decepcionado a sociedade desde sua posse, não adotando as prometidas reformas políticas e econômicas, seus aliados hoje controlam o Irã. Na mais dramática reviravolta desde a Revolução Islâmica de 1979, o Irã passou de Estado teocrático para uma ditadura militar.

A desilusão com o governo clerical cresce há anos. Para os jovens das cidades, que formam a classe política mais atuante do Irã, os mulás simbolizam a rigidez primitiva da lei islâmica. Para os pobres das zonas rurais, encarnam a corrupção, indicada pelas escolas não construídas, estradas sem pavimentação e promessas de desenvolvimento não atendidas.

A hostilidade veio à tona durante a disputa presidencial em 2005, com a derrota do ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, considerado um clérigo corrupto, por Ahmadinejad.

A população via em Ahmadinejad uma pessoa que repudiava o desregramento da classe clerical, um asceta humilde e devoto. E ele tirou proveito dessa imagem para consolidar-se no poder e promover seus camaradas de armas. Quatorze dos 21 ministros de gabinete nomeados por ele são ex-membros da Guarda Revolucionária ou seus associados paramilitares, os basij. Alguns deles, incluindo o ministro da Defesa, Mustafa Mohammad Najjar, são veteranos de unidades famosas que apoiaram operações terroristas na década de 80.

Essa militarização paulatina e sub-reptícia não se restringiu ao governo central; cada vez mais, funções de governadores de províncias, comissários de imprensa, diretores de cinema, oficiais da inteligência e líderes empresariais são preenchidas por antigos membros da Guarda Revolucionária. Hoje a força de elite controla grande parte da economia, diretamente - por exemplo, os basij têm direito à extração de petróleo - ou por meio de empresas de representação como a Khatam al-Anbiya, que domina o setor de construção em todo o país.

Tecnicamente, o poder mais alto continua sendo ocupado pelo aiatolá Ali Khamenei, juntamente com os 12 membros do Conselho dos Guardiães. Mas Khamenei deixou claro que concordaria com a destituição dos clérigos pelo presidente. Na verdade, os serviços de inteligência ocidentais suspeitam que Khamenei aprovou a fraude no segundo turno das eleições de 2005, com a contagem de votos decisivos para Ahmadinejad. Desta vez, o líder supremo manifestou claramente sua preferência, quando exortou a população votar "por um homem do povo, sincero, com uma vida simples".

Por que Khamenei, deliberadamente, pretenderia solapar sua própria classe clerical? Para sobreviver. Bem antes de preocupar-se com um ataque iminente de Israel ou dos EUA, os líderes da Guarda têm alertado o aiatolá para o que consideram ser a maior ameaça para a República Islâmica, que seria uma "política branda de mudança do regime".

Cercado pelas forças americanas no Iraque e no Afeganistão, assediado pelos cidadãos insatisfeitos, o líder supremo transformou-se num homem obstinado e combativo, tentando preservar o sistema que o elevou. De fato, Khamenei - que foi escorraçado como um religioso sem importância por muitos mulás ao ser escolhido para o mais alto posto em 1989 - por diversas vezes mostrou-se disposto a tirar o "islâmico" da Revolução Islâmica. Nesse sentido, ele se colocou de um lado, firmando uma aliança permanente com Ahmadinejad e a Guarda Revolucionária. E a fraude nas eleições só vai aproximá-los ainda mais.

Muitas pessoas espantaram-se com a fraude tão grosseira da eleição, com os candidatos reformistas perdendo até em suas cidades natais. A maneira rápida com que a eleição foi validada e a pronta aprovação de Khamenei só serviram para ressaltar a clara simulação.

Mas não é preciso ser paranoico para se questionar se os eventos seguiram um roteiro: os manifestantes foram às ruas apenas para serem espancados pela Guarda Revolucionária; o regime está disposto a prender os dissidentes - e estaria usando o Facebook e o Twitter para localizá-los -; Ahmadinejad está tão despreocupado que partiu para a Rússia; e cada elemento desse confronto foi um pretexto para uma afirmação do poder da Guarda Revolucionária.

O que isso tudo significa para o presidente Barack Obama e a política de aproximação na qual deseja persistir? Alguns dirão que Ahmadinejad poderá se mostrar mais conciliador, pois terá de dialogar com os EUA para confirmar sua legitimidade, mas isso pode somente ser entendido como uma perspectiva que atende aos objetivos de Washington. Mas o povo iraniano terá então se submetido à consolidação no poder de um regime implacável e à transformação de uma teocracia numa ditadura militar ideológica, com o Irã não precisando e nem desejando uma reconciliação com o Ocidente.

*Danielle Pletka é vice-presidente do American Enterprise Institute, para a área de estudos de política e externa e de defesa. **Ali Alfoneh é professor convidado do mesmo instituto