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Santa Maria lembra 1 ano de tragédia com protesto

Famílias farão manifestação nesta segunda-feira, 27, e pedem punição a responsáveis por 242 mortes

27 de janeiro de 2014 | 2h 04
Elder Ogliari, Enviado Especial / SANTA MARIA - O Estado de S.Paulo

Um ano após a tragédia da boate Kiss, Santa Maria vai andar em ritmo lento hoje para reverenciar a memória dos 242 mortos no incêndio. A prefeitura decretou luto oficial. O comércio vai abrir, mas muitas lojas exibirão laços brancos e colocarão rosas nas vitrines. Pelo menos cinco cultos religiosos estão previstos e, entre o fim da tarde e o início da noite, haverá manifestação pública na Praça Saldanha Marinho.

O incêndio ocorreu na madrugada de 27 de janeiro do ano passado. A investigação policial mostrou que, durante um show pirotécnico da banda Gurizada Fandangueira, uma faísca atingiu o revestimento de espuma do teto. A fumaça tóxica, composta por cianeto, matou a maioria das vítimas por asfixia. A tragédia deixou ainda pelo menos 600 feridos.

Para marcar o primeiro ano do incêndio, a Associação das Vítimas e Familiares de Vítimas da Tragédia de Santa Maria (AVTSM) programou o Congresso Internacional Novos Caminhos - A Vida em Transformação, evento que começou anteontem e termina hoje. As atividades voltaram-se para o tratamento de traumas, prevenção de desastres, exibição de um filme sobre a tragédia e convivência de familiares e vítimas.

Pais que perderam filhos disseram que se mantêm em estado de luto permanente e fazem da luta pela condenação dos culpados e pela segurança de quem sai para se divertir a razão de suas vidas. "Fazer esse serviço é uma forma de superar o trauma", disse Sérgio Silva, que perdeu um filho no incêndio.

"É inconcebível pensar que a dor passa, ela nos acompanha para sempre", disse Nilda Cruz, mãe de um estudante morto na boate Republica Cromañón, em Buenos Aires, em 30 de dezembro de 2004. "Se vamos viver assim, temos de fazer algo, colocar os responsáveis na cadeia e trabalhar pela memória de nossos filhos", afirmou.

Portando um cartaz com a foto da filha Rafaela Schmidt Nunes, morta aos 18 anos, o técnico em telefonia Jorge Alberto dos Santos Nunes, de 51, um dos 300 inscritos no congresso, resumia a dor de todos. "Voltei a trabalhar 20 dias depois da tragédia, mas tive de me ausentar de novo em agosto, por depressão, e permaneço afastado desde então", contou.

"No convívio com as outras pessoas, a gente até sorri, mas é falso", disse Nunes. Em meio à tristeza, ele observa que a vida mandou um sinal. Uma filha de 27 anos que dificilmente conseguiria engravidar, segundo opinião de médicos, está esperando o neto Pietro. "Deus o mandou para amenizar um pouco nossa dor."

Justiça. Os familiares lutam também pela responsabilização dos acusados de causar a tragédia e pedem punição de fiscais omissos da prefeitura, de bombeiros, dos donos da casa noturna e dos músicos da banda. "Não é o caso de vingança, mas queremos que todos os envolvidos paguem dentro da culpabilidade que cada um tem, até como exemplo para que isso não se repita", disse o presidente da AVTSM, Adherbal Ferreira. "Se não houver punição, não haverá paz em nossas vidas."

Quatro dos acusados - os músicos Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão, e os empresários Elissandro Callegaro Spohr e Mauro Londero Hoffmann - vão a júri popular sob a acusação de homicídios qualificados com dolo eventual.


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