Sarney deve renunciar ao cargo, cobram senadores
PSDB, DEM, PSOL e PDT exigem saída, sob alegação de que licença não alivia mais crise
O anúncio do cancelamento dos atos secretos não produziu, ao menos no plenário, o efeito esperado pelo presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP). A medida - considerada decisão política para não responder às denúncias de desvio de verba da Petrobrás pela Fundação José Sarney - levou um grupo de parlamentares do PSDB, DEM, PSOL e PDT a pedir, ontem, a renúncia de Sarney da presidência.
"A licença já não basta", disse o senador Pedro Simon (PMDB-RS). "Simon deu um salto adiante, já se trata de renúncia. Se demorar mais, pode ser a cassação de mandato", acrescentou Cristovam Buarque (PDT-DF).
O senador Arthur Virgílio (AM) entrou com uma nova denúncia no Conselho de Ética, argumentando que "o presidente Sarney mentiu" ao negar, no plenário e em nota oficial, envolvimento direto com as decisões da fundação. Virgílio pediu a instalação de processo disciplinar para investigar se houve quebra de decoro parlamentar.
Reportagem do Estado, no sábado, mostrou que, pelo estatuto da fundação, Sarney tem controle absoluto das decisões. A fundação teria desviado para contas de empresas fantasmas ou do clã Sarney ao menos R$ 500 mil de um patrocínio de R$ 1,3 milhão.
PACIFICAÇÃO
O clima político no plenário levou até o senador Sérgio Guerra (PE), presidente dos tucanos, a sugerir que, depois da saída de Sarney, o plenário escolha um petista para pacificar o Senado. "Aqui tem um, é do Paraná", declarou Guerra, referindo-se ao senador Flávio Arns (PT).
Companheiro de PMDB de Sarney, Simon defendeu com veemência a renúncia e acusou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de hoje estar "mais para um general da ditadura que o líder sindical, o grande Lula, o grande companheiro".
Na sua avaliação, não adiantaria mais Sarney se licenciar do cargo para aliviar a crise. "Ele tem de renunciar à presidência do Senado. Ele tem de fazer o que os seus antecessores fizeram. Ele deve renunciar e nós devemos nos reunir para escolher alguém que seja a representação de todos nós."
Simon considerou a interferência de Lula no Senado "humilhante". Admitiu que não teve coragem de dizer para Sarney, frente a frente, que ele deveria renunciar ao cargo, quando conversaram na semana passada. "O presidente Sarney tem de ter a grandeza de renunciar à presidência do Senado", insistiu o parlamentar gaúcho.
CASA AMEAÇADA
Na opinião de Cristovam, Sarney está caminhando em direção ao que é ruim. "Ruim para ele, para nós, para o Senado", avaliou. "A impressão é de que, com a sua obstinação, ele está disposto a sobreviver ao Senado, porque hoje é o Senado que está ameaçado."
Outro que defendeu a saída de Sarney foi Renato Casagrande (PSB-ES). "Tenho a posição pessoal de que o senador Sarney não tem mais as condições políticas para permanecer à frente da presidência da Casa", observou. "Além dessa mudança, que neste momento depende dele, nós temos de fazer profundas mudanças na prática política, na gestão administrativa desta Casa."
Ainda segundo o senador Casagrande, de nada vai adiantar substituir o atual presidente, se a posição do Senado não mudar. "Não adianta continuar na mesma situação."
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