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Matthew Shirts
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Saudades do meu pai

08 de maio de 2011 | 0h 00
Matthew Shirts - O Estado de S.Paulo

No dia 11 de setembro de 2001, meu querido pai, R. Garry Shirts, aquele que você conhece aqui das minhas mal traçadas, acordou no hospital. Submetera-se, na noite anterior, a uma cirurgia para colocar três pontes de safena no coração. Foi um procedimento hoje chamado de invasivo. Deve ter doído. Deixou cicatrizes no peito.

Meu pai dizia que acordou sozinho naquela manhã no quarto do hospital, em La Jolla, na Califórnia, desorientado, ainda sob o efeito dos analgésicos e remédios para dormir. Na televisão, fixada no alto, passavam cenas de difícil compreensão, ao menos para ele, naquele estado pós-operatório. Um avião comercial de grande porte colidia, de frente, com uma das torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, provocando uma explosão, terror e destruição maciça. Poucos minutos depois, a cena se repetia tal e qual na torre irmã. A narração dos apresentadores de televisão era de pânico e incompreensão. Ninguém sabia explicar o acontecimento.

O velho Garry fez o que qualquer um de nós faria em situação semelhante. Achou, ao lado da cama, o controle remoto e mudou de canal. Mas de pouco adiantou. Zapeava. Mas com exceção de uma ou outra reprise de velhos seriados, como Batman, passavam as mesmas cenas de horror nova-iorquino em todos os canais. Os aviões não paravam de destruir as torres gêmeas. As cenas se repetiam sem trégua, nem mesmo para comerciais. Meu pai apertou o dispositivo ao lado da cama para chamar a enfermeira. Uma, duas, três vezes. Mas não aparecia ninguém. (Mal sabia ele que todos os funcionários do hospital estavam grudados em frente de outros televisores). Chegou à conclusão condizente com sua formação religiosa forte, de jovem, mas que repudiara com o avançar da idade: havia morrido e ido para o inferno. Apostara errado durante a vida, em outras palavras. Devia ter cultivado a herança religiosa. O inferno existe. É um quarto de hospital, com uma programação de televisão repetitiva e terrorista, ao qual a enfermeira não vem nunca, por mais que a chame.

Sinto saudades imensas e dolorosas do Garry, como sabe quem já teve o infortúnio de perder o pai. Ele morreu há duas semanas, dia 24 de abril, agora para valer. Não foi no hospital. Perdeu os sentidos e caiu no Jóquei Clube de Del Mar, após ter feito uma fala em homenagem a uma amiga - que gostava de apostar nos cavalos - em um serviço memorial. Minha mãe colocou uma pílula de nitroglicerina embaixo da sua língua ali no chão. Foi atendido por uma equipe de emergência, com uma máquina desfibriladora, quase de imediato. Tomou adrenalina na veia. Mas não houve reação. Foi-se. Como se escrevia no século 19 no Brasil, a causa da morte foi: "De repente". Tinha 77 anos de idade.

Garry Shirts foi o que se chama aqui de "grande figura". Durante a minha vida, o mais difícil sempre foi explicar o que ele fazia. Foi um inventor de "simulações", conhecidas entre os leigos como "jogos". São todas divertidas e intensas. Depois de participar de uma simulação escrita por ele, nunca mais você será o mesmo. Os títulos dos mais conhecidos são "Starpower", "Bafá, Bafá" e "Pumping the Colors". São utilizadas por empresas, como treinamento, em universidades e escolas para fazer os participantes sentirem na pele os desentendimentos provocados por diferenças culturais e a natureza corrosiva do poder, por exemplo. Mas também são aplicadas para ensinar às pessoas os prazeres de se trabalhar em equipe.

Meu pai era um dos personagens mais queridos entre quem me lê aqui, no Caderno 2. Isso toca o meu coração. Seu entusiasmo pelo potencial da tecnologia, que agora entendo melhor, era destacado sempre. Lia livro digital no seu kindle durante seu pedestrianismo diário na Califórnia, enquanto falava comigo no Brasil pelo celular. Nunca deixou de achar isso o máximo, maravilhoso, uma descoberta. Com o passar dos anos e a melhoria da telefonia e da internet, ficamos, eu e ele, cada vez mais próximos. Seu objetivo pessoal e profissional sempre foi o de aproximar pessoas e culturas diferentes. Acreditava que a tecnologia ajudava a realizar essa junção.

Recebi já pêsames de amigos e leitores que não conheço pessoalmente. Agradeço a todos do fundo da minha alma. Alguns leitores brasileiros chegaram a ponto de deixar recados no obituário dele - online - do jornal San Diego Union, na Califórnia. A internet permite esse tipo de manifestação carinhosa.