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Seu Adolfo, 'gente boa' e, agora, ricaço

Santa Rita só fala da humildade e do prêmio do jardineiro

05 de janeiro de 2010 | 0h 00
Flávia Tavares - O Estadao de S.Paulo

"Seu Adolfo? Nooossa, gente boa demais!", disse a primeira pessoa. "Ali, noooossa, é gente muito simples, trabalhadora", emendou outra. No bairro de Serra Pelada, em Santa Rita do Passa Quatro, a 260 quilômetros da capital paulista, o consenso é de que, se havia alguém que merecia ganhar a bolada da Mega Sena da Virada, era o seu Adolfo. O jardineiro e caseiro de 78 anos, casado com Ana, pai de 13 filhos (dois já morreram), avô de uns 30 nas contas da vizinhança e bisavô de outros 20, é querido e conhecido tanto quanto um senhor humilde e batalhador pode ser numa cidade de 30 mil habitantes.

Tanto que não foi uma conhecida só que lacrimejou ao falar do orgulho de ver essa família ficar milionária da noite do dia 31 para o primeiro dia de 2010. "Até chorei no portão, pensando na saudade que vou sentir", disse Rosa, uma das vizinhas mais chegadas e que, segundo a boataria, teria recebido uma ligação de Patrícia, a caçula de Adolfo, pedindo que esvaziasse a geladeira para a comida não estragar.

A cidade está tão alvoroçada por abrigar o mais novo ricaço do Brasil que até um rumor de que a casinha de três quartos e muro baixo da família teria sido saqueada se espalhou. Uma policial militar que não quis se identificar negou veementemente o crime. "É que o povo está assustado. Hoje mesmo é a quinta vez que eu venho aqui por causa de denúncias desse tipo", explicou, ressaltando que a cidade só tem uma viatura.

De fato, o movimento em frente à residência cor de tijolo tem sido intenso desde que Adolfo ficou famoso. Uma dessas vizinhas de cotovelos na janela até mencionou que um dos filhos do milionário é chegado numa cachaça e foi ele quem espalhou a novidade por Santa Rita. "Maledicência", garantiu a outra comadre. Pelo sim, pelo não, a família do jardineiro mandou um parente retirar o Fusca amarelo da garagem, para que ninguém se assanhasse a roubar o carrinho que há tantos anos serve seu Adolfo.

Apavorado com o assédio, ele pegou a família e zarpou de Santa Rita. Há quem diga que ele está em Porto Ferreira, cidade vizinha, na casa de parentes. Outros afirmam que ele está num hotel fazenda em Ribeirão Preto. O que todo mundo sabe é que o sonho de Adolfo sempre foi comprar a fazenda de café onde foi criado e trabalhou como caseiro. "Eu encontrava ele na lotérica toda semana e ouvia: "Tá aqui meu joguinho pr"eu comprar a Santa Urbana"", lembrou, com olhos marejados, Sônia, uma vendedora de Santa Rita.

A boca não tão miúda dos santa-ritenses dá conta de que os donos da Santa Urbana pediram R$ 4 milhões. E Adolfo teria oferecido R$ 5 milhões. "O negócio já está fechado", afirmou categórico o comerciante Fernando Missiato, para quem Adolfo já jardinou. Aliás, Missiato sentiu na pele o que é ser Adolfo por dois dias. Por algum motivo, espalhou-se na cidade que o comerciante era o ganhador dos R$ 72 milhões da Mega. "Foi repórter na minha casa, teve gente me pedindo dinheiro, teve gente que até ameaçou minha mãe", contou.

O próprio Adolfo ligou para uma assessora do prefeito para acabar com a boataria e confirmar que era ele mesmo o novo milionário. "Estamos preocupados, porque a família é grande e não está acostumada com tanto dinheiro. Queremos que eles tenham uma boa orientação de como usar a fortuna", disse Agenor Mauro Zorzi, prefeito de Santa Rita do Passa Quatro, cidade de R$ 49 milhões de orçamento para 2010.

Se depender dos hábitos de Adolfo e sua mulher, não haverá muita extravagância. Os dois sempre gostaram de se sentar nas cadeiras de arame em frente à casa e papear com os vizinhos - Ana sofre com varizes e não trabalha mais. Adolfo também tem o costume de ligar o rádio de pilha às 4h30 para ouvir uma musiquinha enquanto se apronta para cuidar da casa de um advogado da cidade. Os filhos todos, contam os conterrâneos, trabalham em sítios como caseiros e as filhas, como empregadas domésticas.

O jardineiro da Rua das Orquídeas é um novo milionário, mas, na memória dos conhecidos, vai ser sempre o senhorzinho "nooooossa, gente boa demais".