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Sinfonia interrompida?

Orquestra Mirim Armando Prazeres, que ensina música[br]para jovens dos morros cariocas, enfrenta crise por falta de apoio da iniciativa pública e privada

15 de julho de 2009 | 0h 00
Roberta Pennafort, RIO - O Estadao de S.Paulo

Quando chegou à Orquestra Mirim Armando Prazeres, Áureo Luis do Nascimento Moura, morador da favela Tavares Bastos, no Rio, nunca tinha visto um contrabaixo. Se lhe perguntassem o que era aquilo, diria: "Parece um violão grande." Passados quatro anos, o garoto é tão íntimo do instrumento que não se imagina mais sem ele. Há dois meses, depois de muito estudo, conseguiu realizar o sonho de entrar para a Orquestra Sinfônica Brasileira Jovem. É o mais novinho dos músicos - tem 15 anos. "Fico orgulhoso de mim", confessa.

Wellington Santos Marques de Oliveira, de 18 anos, e Camila Pereira da Silva, de 14, ambos de famílias sem recursos, são hoje jovens violinistas entusiasmados, ouvintes atentos de Haydn, Vivaldi, Mozart, Corelli e Fiocco, e tiveram suas vidas transformadas pela música. "Eu gostava de pagode, desses que fazem a pessoa chorar", lembra Wellington, que, como Camila, virou rato dos concertos gratuitos realizados no Rio de Janeiro. "Sempre tem alguém que vem me chamar para jogar futebol e dizer que sou otário, porque só fico estudando violino. Mas esse é o meu sonho!"

"Eu não tinha a menor noção, nunca tinha escutado música clássica. Chamava o violoncelo de ?o maior? e o violino, de ?o menor?. Hoje, só penso nisso", conta Camila, ex-fã de hip hop. Como o colega, de aluna ela virou monitora da orquestra mirim. O projeto, criado em 2003, é da violoncelista da Petrobras Sinfônica Atelisa de Salles. Ela deu o nome do amigo Armando Prazeres, o maestro que fundou a orquestra apadrinhada pela Petrobras (assassinado há dez anos), por sua especial atenção aos jovens. A empresa passou a patrocinar também a orquestra mirim em 2004.

Mas... Tudo ia muito bem até que, no ano passado, a verba foi suspensa. Desde então, Atelisa e sua filha, Ana Teresa Palhano de Jesus, assistente social do projeto, estão à procura de outro patrocinador, para não deixar a ideia morrer. O problema é que o corte do patrocínio desanimou alunos e professores. Dezenove garotos já debandaram. Ficaram 50.

"Os pais ficam achando que vai acabar e tiram logo as crianças. Mas enquanto eu estiver viva, não vou desistir. Se tiver que dar aula no meio da rua, dou", diz Atelisa, professora desde os 15 anos. "Nosso objetivo não é profissionalizar, embora isso acabe acontecendo pela qualidade do ensino. A gente quer é dar oportunidades." A qualidade a que ela se refere já foi atestada por músicos como Antonio Meneses e Márcio Carneiro, que foram conhecer a orquestra levados por Atelisa.

Os professores e funcionários precisam do dinheiro para se manter. Eram 14, agora são 8. Já os monitores, como Wellington e Camila, mesmo sem a ajuda financeira, que variava entre R$ 150 e R$ 350, seguem firmes. "As coisas que eu estou aprendendo valem mais do que dinheiro", justifica Wellington. "Meu objetivo é que meus alunos um dia sejam melhores do que eu", explica Camila.

Participam do projeto meninos e meninas dos morros Azul, Vidigal, São João, Santo Amaro, Tavares Bastos e Babilônia, com idade mínima de 7 anos. As aulas são uma ou duas vezes por semana, dependendo do instrumento. São oferecidos cursos de violino, violoncelo, viola e contrabaixo, além de teoria musical e história da música. Os instrumentos utilizados foram comprados pela Petrobras ou doados. Os jovens já se apresentaram na Sala Cecília Meirelles, na Academia Brasileira de Música e no Forte de Copacabana. O sonho de todos, claro, é o palco do Teatro Municipal.

Os professores utilizam o método desenvolvido pelo violinista e pedagogo japonês Shinichi Suzukino, depois da 2ª Guerra Mundial. Ele acreditava que, num ambiente musical adequado, o aluno teria maior facilidade para dominar um instrumento, assim como acontece no processo de alfabetização.

Todos os anos a orquestra mirim se apresenta em dois concertos, pelo menos. É quando as famílias se reúnem e têm a oportunidade de ver de perto o resultado do esforço dos meninos. O último, com 20 músicos da orquestra, foi na semana passada. Como sempre, a plateia caiu no choro. A apresentação foi no auditório do Instituto Metodista Bennett, que dá apoio ao projeto oferecendo salas para ensaio e guarda dos instrumentos.

SÓ NEGATIVAS

A Petrobras informou que o patrocínio, no valor anual de R$ 256.374,20, foi encerrado no dia 26 de março, depois de quatro anos, sendo que no último ano este foi concedido em caráter excepcional, "considerando a relevância da proposta e a natureza das metas sociais pretendidas, que, no entendimento da coordenação do projeto, requeria mais 12 meses para sua consolidação e diversificação das fontes patrocinadoras". Normalmente, o tempo médio é de um ano, podendo ser renovado duas vezes.

O caso é bem diferente da Petrobras Sinfônica. Este é um patrocínio da área cultural, de R$ 8,8 milhões, renovado anualmente, "conforme os resultados alcançados", "incluindo contrapartidas e benefícios de imagem associados ao patrocínio." Desde a notícia da suspensão, Ana Teresa já procurou diversas empresas, mas só recebeu negativas. Seu telefone: 21-9273-7586.