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Sociedade civil organizada definiu surgimento de hospitais

Instituições que antes serviam apenas de abrigo para pobres e doentes hoje têm papel central na vida urbana

31 de dezembro de 2009 | 0h 00
Karina Toledo - O Estadao de S.Paulo

Entre 1858 e 1958 o número de hospitais na cidade de São Paulo passou de um para cem. Esse crescimento pode ser, em parte, atribuído à riqueza e desenvolvimento gerados pela cultura cafeeira e aos imigrantes que com ela chegaram à capital. Mas foi a transformação da medicina ocorrida na segunda metade do século 19 que conferiu aos hospitais o papel central que têm hoje na vida urbana.

A concepção de hospital como o melhor lugar para tratar doentes e acolher recém-nascidos é recente, afirma a historiadora Maria Lúcia Mott, do Instituto Butantã. Ela recuperou a história do surgimento dessas instituições na capital no livro 150 anos da Saúde em São Paulo. A publicação, que aguarda patrocínio para ser lançada, faz parte do projeto Inventário Nacional do Patrimônio Cultural da Saúde, da Fiocruz. Alguns desses hospitais centenários também têm iniciativas para resgatar sua história, entre elas um livro, um DVD e um museu (mais informações nesta pág.).

"Até meados do século 19, os ricos se tratavam em casa. Nem sequer havia médicos nos hospitais. Como não se sabia ainda a causa e a cura das doenças, essas instituições eram apenas um abrigo, um lugar de caridade que acolhia pobres e desclassificados, um lugar onde as pessoas iam para morrer", conta a historiadora. Nesse contexto, surge em 1498 a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia, em Lisboa, sendo instituída em todos os domínios portugueses no período colonial. Com mais de 400 anos, a Santa Casa de São Paulo é a terceira do País.

Outra função dos hospitais nesse período era isolar os portadores de doenças contagiosas e os doentes mentais, para que não atrapalhassem a sociedade "saudável e produtiva". Com esse objetivo foi fundado, em 1880, o Hospital dos Variolosos, atual Instituto de Infectologia Emílio Ribas. "Inicialmente seu funcionamento era irregular, atuava apenas em momentos de epidemias", conta Maria Lúcia. Além de vítimas de varíola, a instituição - que em 1894 passou a se chamar Hospital do Isolamento - abrigava portadores de tuberculose, peste bubônica, febre tifoide e outras moléstias infecciosas. Para isso, escolheu-se um local distante dos aglomerados populacionais: a antiga estrada do Araçá, hoje conhecida como Avenida Dr. Arnaldo.

Até o início do século 20, essas eram as únicas instituições públicas de assistência à saúde em São Paulo. "Não existia ainda o conceito de que saúde é um direito de todos e um dever do Estado. O Estado ainda se perguntava, nesse período, se seria sua função cuidar das pessoas ou se lhe cabia apenas debelar epidemias e fazer saneamento", explica a historiadora.

Para preencher o vazio assistencial, a sociedade civil, principalmente os imigrantes recém-chegados à capital, começou a se organizar em associações de auxílio mútuo. A primeira delas foi a Beneficência Portuguesa, criada em 1859 por 168 sócios portugueses, entre eles caixeiros, barbeiros, capitalistas, industriais, padeiros e outros.

"No início havia a dúvida se a finalidade da sociedade era prestar serviços apenas aos sócios ou se seria de beneficência, estendendo os serviços aos não-sócios. Decidiram ajudar a toda comunidade portuguesa", conta Maria Lúcia. Além de auxiliar os enfermos, era função da sociedade procurar trabalho para os desempregados, fornecer alimentos aos que estivessem impossibilitados de trabalhar, dar sepultamento aos que não tivessem meios para tal e ajudar aqueles que desejavam retornar ao país de origem, mas não podiam custear a viagem.

Mais ou menos nos mesmos moldes surgiram em 1878 a Societá Italiana di Beneficenza in San Paolo (que funcionou até 1993 com o nome de Hospital Humberto Primo), em 1897 a Associação Hospital Alemão (hoje conhecida como Hospital Alemão Oswaldo Cruz), em 1921 a Sociedade Beneficente de Senhoras-Hospital Sírio (atual Hospital Sírio-Libanês), e mais recentemente o Hospital Santa Cruz, da colônia Japonesa.

"Os imigrantes têm religião, cultura e língua diferente. É difícil mandar um doente que fala japonês para a Santa Casa. Eles se sentem melhor sendo tratados por gente de sua própria comunidade", diz Maria Lúcia.

E foi justamente um conflito cultural, mais precisamente religioso, o ponto de partida para a criação do Hospital Samaritano, em 1894. Reza a lenda que o imigrante chinês José Pereira Achao teria contraído febre tifoide durante a viagem ao Brasil, na segunda metade do século 19. Ao ser socorrido na Santa Casa teria sofrido constrangimentos por ser protestante e, quando morreu, decidiu doar a pequena fortuna que havia amealhado para a Igreja Presbiteriana de São Paulo para a fundação de um hospital evangélico. A doação não foi liberada pelo Império, pois a legislação proibia as corporações religiosas de receber herança. Mas uma nova doação foi feita em forma de dízimo e se cumpriu o último desejo de Achao.

"O terreno escolhido, segundo os princípios higiênicos preconizados na época, estava situado numa das encostas do vale do Pacaembu - região alta e arborizada. Tinha como vizinhança o recém-aberto bairro de Higienópolis, que abrigava famílias das elites brasileira e estrangeira", conta a historiadora no livro. Isso porque, no fim do século 19, os hospitais passaram a ser atraentes às camadas mais abastadas da sociedade. Graças à revolução na medicina promovida pela microbiologia, eles haviam se transformado em locais de cura.

A cidade passava por uma profunda transformação. A população, que em 1870 ficava na casa dos 30 mil, chegou a 240 mil na virada do século. Novas atividades econômicas nasciam com a industrialização. E, para atender à crescente diversidade da população, começaram a aparecer novos hospitais públicos, privados e filantrópicos. Em 1894 surgiu a Associação Beneficente e Protetora das Mulheres Desamparadas - primeira maternidade paulistana. Em 1906 foi inaugurado o Sanatório Santa Catarina, primeiro hospital particular da capital. E em 1916 surgiu o Hospital de Creanças da Cruz Vermelha Brasileira - primeira instituição pediátrica da América Latina e terceira do mundo.

"A abertura dos bairros em São Paulo passou a determinar os locais de fundação dos hospitais. No próprio projeto urbanístico já se pensava na questão do hospital", conta Maria Lúcia. Isso demonstra que o serviço prestado por essas instituições tornava-se cada vez mais valorizado pelos moradores da metrópole em formação.

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A descoberta do bacilo causador da tuberculose por Robert Koch, em 1882, e a comprovação da existência de micróbios no ar, por Louis Pasteur, revolucionaram a medicina, a higiene pessoal e a saúde pública. A assepsia e a esterilização passaram a ser preocupação constante e se tornou possível criar vacinas e antibióticos

Não se sabe ao certo a data de fundação da Santa Casa de São Paulo, mas dizem que sua primeira sede foi a palhoça do Anchieta, no século 16. O primeiro hospital foi construído em 1715 e mudou várias vezes de local até se estabelecer, em 1884, no bairro do Arouche


A instituição foi rebatizada em 1932 em homenagem ao diretor do Serviço Sanitário do Estado, Emílio Ribas. Ao lado de Adolfo Lutz, ele reproduziu no hospital as experiências cubanas para provar que
a febre amarela era transmitida pela picada de um mosquito


Quando o Brasil declarou guerra à Alemanha, em 1917, a Associação Hospital Alemão foi proibida de se reunir. Durante a Segunda Guerra, o hospital
ficou sob intervenção do Estado e teve o nome mudado para Hospital Oswaldo Cruz

A ideia de fundar um hospital para crianças partiu de Maria Renotte, primeira mulher formada em Medicina a registrar o diploma na cidade. A criação de um hospital infantil estava ligada à institucionalização da Pediatria como especialidade médica


Alguns historiadores consideram o Samaritano o berço da enfermagem profissional no Brasil. As primeiras "matrons" vieram do exterior, mas nos últimos anos do século 19 foi criado um curso prático de formação no hospital