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Sonhos, memórias e rock''n''roll

Erasmo Carlos faz show do novo CD e lança livro em que conta episódios pitorescos de sua vida

23 de outubro de 2009 | 0h 00
Lauro Lisboa Garcia - O Estadao de S.Paulo

Com título emprestado de um de seus rocks mais conhecidos, o livro de memórias Minha Fama de Mau (Ed.Objetiva, 360 pags., R$ 44,90), de Erasmo Carlos, poderia também se chamar Uma Farra no Tempo, subtítulo de Noite Perfeita, uma das faixas do álbum Rock"n"Roll. Erasmo, que faz show único hoje na cidade com parte do repertório no novo CD (leia abaixo), diz que tinha também uma sugestão complementar para o volume: Sonhos e Memórias de um Menino da Tijuca.

Sonhos e Memórias, nome de um de seus discos pós-jovem guarda, está num dos textos iniciais do livro e num verso da letra de Nelson Motta para a nova canção Noturno Carioca. Acrescente-se a esses ingredientes boas doses de sexo e rock"n"roll e a farra está completa. Drogas, menos. "Só uma vez cheirei cocaína e não gostei", conta Erasmo, que aproveitou para fazer a defesa do álcool em descontraída conversa com o Estado.

"Na jovem guarda ninguém fumava nem bebia. Só depois experimentei maconha e outras drogas, como ácido, mas só duas ou três vezes. Conto isso no livro, cito. Só não falo das minhas viagens, porque, inclusive, não me lembro, porque estava viajando", diz o bem-humorado compositor e cantor, provocando gargalhadas.

O bom humor dá a tônica de Minha Fama de Mau, que tem texto final do jornalista Leonardo Lichote e não pretende ser uma autobiografia, nem mergulha nos dramas da carreira de Erasmo, como o suicídio de Narinha, sua mulher. "Não contei as maldades. A intenção era contar com humor certas histórias e curiosidades da minha vida. Quando comecei a escrever, eram casos aleatórios engraçados que aconteceram comigo sozinho, com a família os amigos. Não tenho pudor, eu entrego as verdades da vida", diz.

Como já esperava que o público fosse reagir rebatendo o título do livro, Erasmo confirma que "mau" não deve ser levado ao pé da letra. É mais um lance de marketing e para fazer gênero. Mas faz questão de manter a fama? "Ah, é sempre bom, né? (risos) A fama de mau agrada certo segmento de mulheres. E eu forro de tudo que é jeito, músicas românticas com Roberto Carlos para umas, rock para outras. Com isso eu cobro vários segmentos femininos."

Tim Maia ("sacana até em pensamento"), que ensinou três acordes a Erasmo, com os quais deu os primeiros passos, Carlos Imperial ("uma das personalidades mais marcantes que conheci") e Roberto Carlos ("o Amigo, com maiúscula") são protagonistas de várias histórias engraçadas. Entre episódios da infância com a mãe e as traquinagens e brigas da adolescência, as trapalhadas no início da carreira artísticas e as conquistas sexuais, Erasmo fala de uma "substância preta" que um certo Timbó inventou para alisar os cabelos da turma (Tim Maia virou adepto) e até de uma operação de fimose e de um bate-papo no banheiro de um restaurante com Roberto Carlos (leia no destaque). "Fiz questão de publicar essa história, porque representa o diálogo do amigo comum."

Isto é o máximo de "revelação" que faz sobre o amigo e parceiro de centenas de canções. Uma delas, Além do Horizonte, foi feita num sítio em 1975, num fim de semana que ambos passaram isolados. "Isso nunca mais se repetiu, por isso me lembro com tanto carinho e quis colocar no livro", diz Erasmo, que hoje pouco se encontra com o aquele que dedicou Amigo a ele, provocando muitas lágrimas de emoção ao ouvirem a gravação juntos pela primeira vez.

Se alguém espera detalhes sensacionalistas a respeito das manias do reservado Roberto, vai se frustrar. Erasmo diz que nem leu a vetada biografia do Rei, escrita por Paulo César de Araújo, para não se influenciar nem virar "advogado em causa dele". "Quero falar do meu livro, o dele não me interessa." Erasmo nem tampouco consultou Roberto ou quem quer que fosse antes de publicar as histórias. "Se houver reclamações, vou culpar minha imaginação. Agora, não inventei nenhum caso." Mas admite que há um certo exagero em alguns.

O famoso episódio de uma festa no apartamento de Carlos Imperial envolvendo Erasmo, Eduardo Araújo e garotas menores - um dos motivos que levaram Roberto a entrar na Justiça contra Araújo - não ficou de fora. Diante da acusação de corrupção de menores, Imperial saiu-se com essa pérola no diálogo com o juiz: "Vossa excelência me desculpe, mas quando conheço uma mulher não peço a carteira de identidade dela".

Aos 68 anos de vida e 49 anos de carreira, Erasmo está em alta novamente, com um séquito renovado de fãs (re)descobrindo seu importante legado para a música pop brasileira - com muito rock, mas também com influência da tradição, incluindo a bossa nova de João Gilberto, ambas as vertentes preservadas com ele "até hoje em coexistência pacífica". "Quem é do signo de Gêmeos, como eu, é um duplo", diz o cantor, carioca de nascimento e baiano de criação.

"Não forço barra nenhuma, tudo o que acontece comigo tem de ser no momento certo. Agora calhou tudo, o disco, o show, o livro. Ninguém combinou as datas de lançamento, ninguém combinou de o livro estar agradando as pessoas, de as músicas do disco serem boas", observa. "Fico feliz com os elogios para esse disco, que é de certa forma revitalizante, porque ao mesmo tempo continuo ensinando coisas às novas gerações, como a descoberta do antigo. É os jovens assumindo o antigo como se fosse novo. Já que não conhecem, é novo para eles."

Trecho


Diálogo entre Erasmo e Roberto Carlos (todo preocupado com a higiene do amigo) no banheiro de um restaurante em Santa Mônica, EUA:

"Roberto foi para a pia lavar as mãos, tendo o cuidado de antes pegar papel higiênico para abrir a torneira. Ao ver a pia do lado vazia e perceber que eu não o acompanhava, perguntou:

- Bicho, você não lava as mãos para pegar no seu piru, não?

Feliz da vida pelo alívio do xixi saindo, respondi que não. Em tom didático ele retrucou:

- Mas deve lavar, meu irmão. Os médicos não se cansam de dizer que os órgãos sexuais masculinos e femininos são muito sensíveis a infecções, por isso sempre recomendam o máximo de higiene. Não custa nada você fazer isso, é uma questão de preservação do corpo. Se é que você gosta do seu corpo - provocou.

- Gosto muito, principalmente do meu piru - respondi veemente, admitindo que havia algum fundamento em sua preocupação. - Adoro ele. É o símbolo da minha virilidade, é o instrumento do meu prazer, me obedece, me entende, não me pede nada, não dá trabalho nenhum, está sempre pronto para guerra. Quer saber? Acho que ele é meu melhor amigo!

Ao me ouvir falar isso, Roberto rebateu na hora:

- Seu melhor amigo?

Já enxugando as mãos, após tê-las lavado, eu disse:

- É, bicho, ele sou eu, eu sou ele, somos um só, enfrentando a vida, perseguindo nossa felicidade, nos aturando um ao outro. Não posso viver sem ele.

Pensando que a conversa chegara ao fim, me preparei para abrir a porta com os ombros, já pensando no cigarrinho que fumaria na volta à mesa. Foi quando Roberto me parou e perguntou, com cara de gozador:

- Seu piru já te emprestou dinheiro?

Sem entender na hora a intenção da pergunta, respondi que não.

Foi quando sua fisionomia se transformou. Com um largo sorriso comemorando minha negativa, fez um sinal de positivo com o polegar, dizendo:

- Ah! Então eu sou o seu melhor amigo!"