Ir para o conteúdo
ir para o conteúdo
 • 
Você está em Notícias >
Início do conteúdo

Supremo decide que prerrogativa de extraditar Battisti é de Lula

Presidente do STF queria impor entrega de ativista à Itália, mas viu sua tese ser derrotada por 5 votos a 4

19 de novembro de 2009 | 0h 00
Felipe Recondo e Mariângela Gallucci, BRASÍLIA - O Estadao de S.Paulo

Está nas mãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva o destino do ativista italiano Cesare Battisti. Com o aval do Supremo Tribunal Federal (STF), Lula poderá negar-se a entregar Battisti ao governo italiano para que cumpra a pena por quatro assassinatos cometidos na década de 70, quando integrava o movimento Proletários Armados pelo Comunismo (PAC). Pela decisão do STF, Lula pode, se assim quiser, manter o ativista no Brasil.

Veja também:

link Incertezas terão de ser sanadas pelo próprio Judiciário

link Demora para proclamação do resultado elevou tensão

link Veredicto anunciado pelo STF divide juristas

link 'Razões humanitárias' podem manter ativista no Brasil

link Deputados italianos chegaram a parar sessão durante julgamento do STF

especialEntenda o caso Cesare Battisti

especialA cronologia do caso Battisti

video Ideologia não influenciou concessão de refúgio, diz Tarso 


Ao fim de três dias alternados de julgamento, iniciado em setembro, os ministros do Supremo decidiram, por 5 votos a 4, que Battisti pode ser extraditado, pois o status de refugiado político, reconhecido pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, é ilegal. Votaram nesse sentido os ministros Cezar Peluso, relator do caso, Ricardo Lewandowski, Ellen Gracie, Ayres Britto e Gilmar Mendes (presidente da corte). Cármen Lúcia, Eros Grau, Joaquim Barbosa e Marco Aurélio Mello julgaram que o tribunal não poderia anular o refúgio.

Mas pelo mesmo placar, 5 a 4, os ministros afirmaram que nada obriga o presidente da República a seguir essa sentença do STF. Nessa segunda votação, Britto não acompanhou o relator do processo e permitiu uma virada no julgamento. Contrariado com o resultado, Gilmar Mendes disse que o caso, mesmo com os votos da maioria dos ministros e com placar anunciado, não está encerrado. "Há questões jurídicas que ainda não estão resolvidas e voltarão ao tribunal", disse ao fim do julgamento.

Todo o esforço do tribunal para julgar esse caso, revendo sua jurisprudência e deixando de lado centenas de outros processos a serem analisados, pode ser inútil a depender do entendimento de Lula. Basta o presidente dizer que Battisti deve permanecer no Brasil para que os efeitos do julgamento do STF, autorizando a extradição, sejam anulados na prática.

Essa possibilidade gerou protestos entre os ministros vencidos, a começar por Peluso. "Não há nenhuma norma jurídica que atribua um poder discricionário ao presidente da República de deixar de efetivar a extradição por conveniência ou utilidade", afirmou. E continuou para dizer que, se o tribunal concluísse que o presidente da República poderia se recusar a entregar Battisti, a atividade do STF seria inútil. "Pura perda de tempo comparável à gratuidade de uma atividade de brincadeira infantil ."

O presidente do Supremo concordou. "Não há espaço para escolha quanto a sua observância. Até porque o STF não é órgão de consulta", defendeu Mendes. Os protestos não convenceram. E os ministros julgaram que a manifestação do tribunal é apenas autorizativa.

ÚLTIMA PALAVRA

Nesta semana, em entrevista concedida durante viagem à Itália, Lula afirmou que cumpriria a decisão do STF se fosse determinativa. "Se a decisão da suprema corte for determinativa, não se discute, cumpre-se", disse. O presidente, porém, não se manifestou sobre a hipótese que acabou prevalecendo no STF, de ser dele a última palavra.

Mas se o governo brasileiro de fato decidir que Battisti não deve ser extraditado, como apurou o Estado, mesmo após a manifestação do Supremo, terá de enfrentar protestos da comunidade internacional. Brasil e Itália têm tratado de extradição firmado e o eventual descumprimento será questionado nos organismos internacionais. A consequência, de acordo com Peluso, será "o descrédito internacional como país que não cumpre tratados internacionais" num momento em que o Brasil pleiteia uma cadeira no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).

RITO DE PASSAGEM

Prevaleceu entre os ministros, apesar de todas essas críticas, o entendimento de que o processo de extradição começa no Executivo e termina com a palavra do presidente da República. "Quando o STF defere a extradição, compete ao presidente da República verificar se fará ou não a entrega do extraditando", afirmou a ministra Cármen Lúcia. "O processo extradicional começa no Executivo e termina no Executivo. O Judiciário comparece como um rito de passagem necessário", disse o ministro Carlos Ayres Britto.