Surge a nova transa amazônica
Elenco genial garante força a O Sol do Meio-Dia. de Eliane Caffé, diretora que prova: é preciso resistir
Eliane Caffé subiu ao palco do Cine Odeon, domingo à noite, para dizer quanto era prazeroso estar ali. Citando sua produtora, Van Fresnot, ela sintetizou todas as dificuldades enfrentadas pela produção - foram heroínas, conseguindo concretizar um projeto contra o qual tudo conspirava. Antes que o leitor fique pensando que as duas sofrem de mania de perseguição, vale dar uma ideia (mínima) desses problemas. No filme, há uma cena em que o personagem de Luiz Carlos Vasconcelos queima sua casa. Ele matou a mulher e o incêndio marca um processo de radicalização. Não há volta, ou parece não haver, para ele. A cena foi filmada - no set no Pará - e enviada para o eixo Rio/São Paulo, para revelar. Houve um assalto no setor de cargas do próprio aeroporto. Ladrões queriam roubar, não o filme de Lili Caffé, claro, mas o levaram junto.
O Sol do Meio-Dia é um dos bons filmes da Première Brasil. Apesar de todo sofrimento, Eliane e Van tiraram da selva - e das comunidades ribeirinhas - um filme forte. É verdade que ele é meio desconchavado, mas o desequilíbrio, se por um lado pode ser defeito, também vira metáfora do mundo e das relações entre os personagens. Eles são basicamente três, interpretados por Chico Diaz, o citado LuizCarlos Vasconcelos e a estreante Cláudia Assunção, uma atriz de teatro mineira. É difícil, senão impossível, dizer quem está melhor. Cada cena parece trabalhada isoladamente, com uma entrega que não poderia ser mais intensa.
Vasconcelos, o que matou, parece o personagem trágico da história, mas este posto cabe a Chico Diaz, que cria um andarilho amazônico. Como se movimenta? Pela água, num barco. Chico tem uma cabeleira à Sansão. É extrovertido. Na verdade, esse comportamento talvez seja uma arma para sobreviver, uma máscara, porque ele é frágil - o próprio cabelo é uma peruca. A mulher coloca-se entre os dois. Objeto de desejo de um, prefere o outro, a quem oferece a chance de uma redenção, ou recomeço. Chico Diaz está no teatro, no Rio. Faz o Capitão Ahab na adaptação que Aderbal Freire-Filho fez do romance clássico de Herman Melville, Moby Dick. No filme, Chico Diaz interpreta... José Dumont. Eliane Caffé não lhe pediu que fizesse isso, mas Dumont havia sido sua primeira escolha para o papel. Eliane já havia trabalhado com Zé em Kenoma e Narradores de Javé. Ela desistiu do ator, seu cúmplice, por achar que ele, fatalmente, terminaria por reproduzir o Biá de Narradores. (In)Conscientemente, ou não, sabendo disso, Chico homenageia Zé Dumont sem deixar de ser ele mesmo, com sua força e personalidade.
O festival vai chegando ao fim. Depois de amanhã, quinta-feira à noite, ocorrerá a cerimônia de premiação. Quem vai levantar o troféu Redentor no palco do Odeon? Ainda faltava ver um concorrente de peso - Cabeça a Prêmio, estreia do ator Marco Ricca na direção -, mas se o júri, integrado entre outros pela diretora Helena Solberg, fizer a coisa certa, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, e Natimorto, de Paulo Machline, são fortes candidatos na categoria ficção. Será bom, de qualquer maneira, não esquecer o que O Sol do Meio-Dia tem de melhor, o trabalho da autora com os atores. Aliás, em matéria de interpretação, talvez não exista surpresa maior no Festival do Rio de 2009 do que Lourenço Mutarelli no filme de Paulo Machline. Suas cenas com Simone Spoladore são ótimas.
Nem só de ficção vive a Première Brasil. Há uma interessante mostra competitiva de documentários. No sábado, passou Belair, de Noa Bressane (filha de Júlio) e Bruno Safadi. A atriz e diretora Helena Ignez e o próprio Júlio Bressane foram ao Odeon prestigiar o filme que reconstitui a experiência da empresa que Rogério Sganzerla e Júlio criaram em fevereiro de 1970. A Belair viveu apenas quatro meses, mas deixou um legado de sete - sete! - filmes de autores essenciais. A imagem de Cuidado, Madame, em que a atriz Maria Gladys dança para a câmera, foi aplaudida em cena aberta - e Maria Gladys estava presente. O codiretor Safadi disse que o personagem principal do filme era o cinema. O próprio fato de estar ali, no palco do Odeon, era uma forma de pagar tributo ao cinema de resistência que Sganzerla e Bressane representaram (e representam).
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