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Toda travessia será castigada

Chega ao País Bem-Vindo, que na França provocou debates sobre leis de imigração

10 de julho de 2009 | 0h 00
Luiz Carlos Merten - O Estadao de S.Paulo

Há tempos o diretor Philippe Lioret e o ator Vincent Lindon queriam trabalhar juntos. Calhou de fazerem Bem-Vindo. O filme que estreia hoje integrou a programação do 2º Panorama do Cinema Francês no Brasil. Trouxe a São Paulo e Rio o cineasta que, há 20 anos, como engenheiro de som, trabalhou com Paulo César Saraceni em Natal da Portela - e aqui conheceu a argentina, mãe de suas três filhas, com quem vive até hoje. Sucesso de público e crítica, Bem-Vindo virou um acontecimento social na França. Desencadeou um debate tão grande - sobre as leis de imigração - que está levando a uma mudança importante.

Veja trailer do filme bem-vindo

Havia, na França, essa lei que penalizava os que ajudavam imigrantes clandestinos. Todos esses verbos têm de ser colocados no passado imperfeito - havia, penalizava -, porque Bem-Vindo está mudando a lei. Não são muitos esses casos. Em Cannes, em maio, o maior festival do mundo exibiu, na abertura de Cannes Classics, a versão restaurada de Meu Passado Me Condena (Victim), de Basil Dearden, com Dirk Bogarde. O filme é de 1961 e, naquela época, o homossexualismo era prática proibida na Inglaterra, penalizado por leis que datavam do reinado de Vitória. Gays, como o personagem de Bogarde, eram vítimas fáceis de chantagistas. Por força do impacto produzido por Meu Passado Me Condena, as leis mudaram.

Mudar o cinema e o mundo é o sonho de muitos autores. Por complicado que seja, mudar o cinema, virar chefe de fila de uma escola ou movimento não é tão difícil assim. Já mudar o mundo, influenciar as leis... Philippe Lioret deu sucessivas entrevistas em São Paulo e debateu com o público - na Reserva Cultural, em São Paulo - a condição do imigrante na França. Ele não poupou o presidente Nicolas Sarkozy. Lembrou que, antes mesmo de presidir a República, como ministro do Interior - e chefe da polícia -, ele já havia implantado um rígido sistema repressivo. "Era uma vergonha. A França, país que em todo mundo era um porto seguro para exilados políticos, tratava seus animais melhor do que os imigrantes."

Mas Lioret não se lançou ao projeto de Bem-Vindo como parte de uma agenda política. "Talvez o filme tivesse fracassado, se assim fosse", ele observa. Bem-Vindo nasceu da sua vontade de contar uma história humana. "Estava buscando uma temática própria quando fui para Calais, no Norte da França." Ele reage ao que lhe diz o repórter - Calais é, num certo sentido, a fronteira mexicana da França. Uma terra de ninguém onde busca por oportunidades e sistema repressivo se chocam em torno de leis que excluem os novos chegados. Foi nesse quadro que começou a se desenhar a história de Simon, o professor de natação que ajuda o garoto, imigrante curdo, que quer atravessar o Canal da Mancha a nado, para encontrar sua amada lá do outro lado.

Simon não age por consciência política. Sua motivação é até egoísta. Ele quer impressionar a mulher, de quem está separado. Ela trabalha com direitos humanos e de imigrantes. Que maneira melhor de mostrar que Simon não é o pequeno-burguês alienado que a mulher pensa que ele é? "Simon sou eu, somos nós ", diz Lioret. É o seu olhar que introduz o público nesse mundo de injustiça social e, apesar de tudo, esperança. Mais até do que a história do esforço do garoto curdo - por mais emocionante que seja a busca da superação dos limites -, é o processo de conscientização de Simon que está em jogo. Que o filme tenha provocado tal repercussão na França é a prova de que Lioret conseguiu mexer com os brios dos franceses.

Há uma mudança em curso no cinema francês. Filmes como Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, e o de Lioret colocam a França cara a cara com os problemas de sua democracia racial, marcada pelas tensões que a presença maciça dos antigos colonizados provoca. Mas, na verdade, não é o cinema que muda - "O cinema apenas reflete a sociedade", avalia Lioret. E o cinema francês há décadas convive com o fenômeno Costa-Gavras. "Cresci vendo os filmes dele, mas não me via fazendo filmes ostensivamente políticos. Bem-Vindo não é político, para mim. A política foi consequência. O que me interessou foi a história da relação de Simon e Bilal, o jovem curdo." Lindon é magnífico, mas não mais do que Firat Ayverdi, que faz o garoto. Depois de Horas de Verão, chega Bem-Vindo. Dois grandes filmes - e diversos entre si. O saldo não poderia ser mais favorável para o 2º Panorama do Cinema Francês.

Serviço

Bem-Vindo (Welcome, França/2009, 110 min.) - Drama. Dir. Philippe Lioret. 14 anos. Cotação: Ótimo