Torcida vai ao CT e cobra raça do São Paulo
Derrota para o Corinthians por 3 a 0 faz explodir crise no time do Morumbi. Torcedores acusam vários jogadores de abusarem nas baladas
A crise começa a retomar o gosto de frequentar o Morumbi. Depois da dolorosa derrota para o Corinthians (3 a 0), domingo, os jogadores são-paulinos se viram obrigados a enfrentar uma realidade a que não estão acostumados: ambiente conturbado por causa de protestos de torcedores. Cerca de 50 integrantes de torcidas organizadas foram autorizados a entrar ontem no Centro de Treinamento da Barra Funda durante a reapresentação do elenco.
O clima era de total insatisfação. A diretoria do São Paulo teve de abrir os portões para evitar que algum ato de violência ocorresse na saída dos jogadores.
"A presença dos torcedores para protestar aqui realmente não é algo normal", admitiu o vice-presidente de futebol Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco. "Ficar indiferente a esta realidade pode gerar algo pior do que deixá-los entrar. Parte da torcida veio manifestar, então tínhamos de ouvi-los. Deixamos os torcedores entrarem para evitar um comportamento de insatisfação exagerada."
Os alvos principais da indignação dos torcedores tricolores foram os zagueiros Alex Silva, que se recupera de uma artroscopia no joelho, e Renato Silva, o lateral-esquerdo Junior Cesar e o volante Cléber Santana. Os jogadores foram acusados pela torcida de frequentar casas noturnas em demasia.
As reclamações foram refutadas pela diretoria. "Não falta raça a este time. Não é esse o problema", disse Leco, que também não soube precisar motivos concretos para as dificuldades da equipe na temporada. "É uma conjunção de fatores. Talvez os jogadores que trouxemos, que são bons, não tenham conseguido assumir um papel de protagonismo no São Paulo", opinou.
Vários dos jogadores perseguidos foram chamados para uma conversa com a torcida. Apesar da insegurança, foram até o alambrado se justificar. Os mais aplaudidos foram Rogério Ceni, um dos poucos a abrir o vidro do carro na entrada do Centro de Treinamento enquanto os integrantes das organizadas ainda não haviam sido autorizados a entrar, e Ricardo Oliveira, que a torcida entende estar sendo sacrificado pela falta de criatividade do meio-campo são-paulino.
Apesar do clima de desconfiança, os jogadores procuraram não confrontar a diretoria na iniciativa de abrir os portões às facções organizadas. "Para mim, não muda nada. A gente não está num bom momento e tem de mostrar a cara", afirmou o corajoso lateral-direito Jean. "Aparecer só quando o São Paulo conquista títulos, na comemoração, é muito fácil", declarou.
Apoio a interino e Dagoberto. O dirigente tricolor garantiu que a diretoria do clube não tinha intenção de pressionar os jogadores com a incomum abertura dos portões do Centro de Treinamento em momento conturbado. Leco ainda eximiu o técnico interino Sérgio Baresi de culpa na situação do São Paulo no Campeonato Brasileiro (15.º colocado, a dois pontos da zona de rebaixamento). As organizadas criticaram o ex-técnico Ricardo Gomes e apoiaram o atacante Dagoberto, que foi afastado do time titular pela direção.
PARA LEMBRAR
Torcida jogou pipoca nos atletas em 2002
O São Paulo não se defrontava com a ira da torcida dentro de seu próprio Centro de Treinamento há pelo menos oito anos. A última vez que a equipe se viu cobrada de forma mais ostensiva por integrantes de facções organizadas foi em 2002. Na ocasião, o São Paulo havia perdido clássicos para o Corinthians e o Palmeiras no Torneio Rio-São Paulo e via a classificação para as semifinais da Copa do Brasil ameaçada por uma derrota para o Vasco em São Januário. O zagueiro Wilson, o atacante França e o lateral-direito Belletti foram chamados de pipoqueiros.
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