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Toyota dá nova chance ao carro americano

Recall de milhões de carros abala credibilidade de montadora japonesa

13 de fevereiro de 2010 | 0h 00
Gustavo Chacra - O Estadao de S.Paulo

Os Estados Unidos ainda não sabem como ficará o setor automobilístico depois dos quase 10 milhões de recalls de carros, sendo a maioria da Toyota, mas que incluiu também a Honda e outras companhias. Esse episódio, ao lado da concordata da General Motors e da Chrysler no ano passado, é um dos mais graves do mercado de veículos desde os anos 80, quando começou um fenômeno de fortalecimento das companhias japonesas dentro do país, em detrimento das rivais americanas.

Há quase 30 anos, o crescimento da Toyota e da Honda no mercado americano foi considerado um dos principais sinais de que os japoneses poderiam dominar a economia mundial. Na época, o Japão era considerado o que a China é hoje em termos econômicos, apesar de ter um peso político menor por não ser uma potência nuclear e tampouco ter mais de um bilhão de habitantes. Analistas diziam ser questão de tempo para os japoneses superarem os americanos e prova disso era o fortalecimento de empresas como a Toyota.

O crescimento do Japão foi colocado em xeque rapidamente. A economia japonesa, ao longo dos anos 90, ficou paralisada, no que ficou conhecido como a década perdida. Mesmo assim, Toyota, Honda e Nissan não pararam de crescer. Com veículos com credibilidade, que "não quebravam nunca", como diziam as propagandas para os novos clientes americanos, foram conquistando o mercado da General Motors, da Ford e da Chrysler. Também souberam incorporar a nova onda de carros mais eficientes no consumo de combustível, em sintonia com a defesa do meio ambiente e das mudanças climáticas. Já as americanas mantiveram a fabricação de carros como os jipes (SUVs) e as caminhonetes, com elevado gasto de gasolina.

Detroit, centro do setor automobilístico americano, entrou em uma queda considerada irreversível diante do crescimento da Toyota que, além de importar, fabricava também em outras cidades americanas. Nos anos 50, Detroit era vista como a metrópole símbolo dos Estados Unidos avançado, onde a classe média morava em subúrbios e comprava carros. No começo de 2009, com uma população equivalente à cerca da metade do que era nos anos 70 e casas com o preço de venda menor do que o aluguel anual de um apartamento em Nova York, Detroit quase observou o fechamento da General Motors e da Chrysler. Enquanto isso, as cidades onde a Toyota mantinha suas fábricas viviam um boom econômico.

As duas gigantes americanas foram duramente afetadas pela crise econômica e viram o valor de suas ações ser pulverizado. Sem saída, entraram em concordata e só conseguiram sobreviver graças a ajuda maciça do governo federal e um programa de incentivo para a troca de carros usados por novos.

Neste cenário de crise, a Toyota soube se consolidar como a maior fabricante de carros do mundo e o Corolla se tornou o veículo mais vendido. O Lexus é líder em seu mercado. E o Prius emergia como o carro da nova geração, híbrido, roubando ainda mais consumidores das americanas, que eram obrigadas a fechar marcas tradicionais diante da mudança no perfil dos consumidores.

Tudo começou a mudar com a onda de recalls da Toyota nos últimos meses e que se incrementaram ainda mais neste ano. A imagem de credibilidade foi arranhada e foram feitas até mesmo comparações com o golfista Tiger Woods, considerado o melhor de todos os tempos, mas que se envolveu em escândalos sexuais que levaram à sua queda e o derretimento de sua reputação de atleta-exemplo.

A Toyota era considerada perfeita, sem erros, que deveria ser o modelo a ser seguido pelas rivais GM e a Chrysler. A Ford, um pouco mais saudável, já vinha adotando muito das lições da japonesa. De repente, com os problemas no acelerador de alguns veículos, um tapete mal colocado em outros, os freios, e a morte de 19 pessoas em decorrência dos defeitos provocaram a perda da credibilidade da empresa. Nem as desculpas de seu presidente, Akio Toyoda, foram capazes de recuperar ou mesmo amenizar.

Pesquisa divulgada nos EUA indica que 27% de possíveis compradores de carros Toyota antes do recall dizem que mudaram de opinião. A empresa tenta se reerguer com incentivos e pedidos de desculpas, mas analistas afirmam que pode demorar anos para ela recuperar a imagem. Ainda assim, a crise, apesar de grave, talvez não seja irreversível.

"A Toyota precisa resolver o problema e ser honesta. O conserto no recall não pode apresentar mais defeitos", escreveu Jim Hall, analista do setor automobilístico, em texto no jornal Detroit Free Pass. Enquanto isso, as americanas se aproveitam para tentar recuperar clientes. A dificuldade será apresentar produtos sintonizados com os novos tempos, como o Prius. Nesta semana, apesar do recall, o modelo ganhou o prêmio de veículo do ano da Chicago MotorWeek, um dos principais eventos do setor.