Tyler abre o sótão da memória
Autobiografia do líder do Aerosmith lança novas luzes sobre a 'blank generation'
Existem dois tipos de memórias de rock stars. O primeiro é aquele que Patti Smith escreveu, Só Garotos, cuja existência, pelo refinamento estilístico, poesia, visão e artesanato, é quase independente dos fatos. O segundo tipo é todo o resto. Mas mesmo neste resto há categorias e categorias, e O Barulho na Minha Cabeça te Incomoda? (Does the Noise in My Head Bother You?), lançado agora pela Benvirá, a autobiografia de Steven Tyler, cantor do Aerosmith, entra direto no ramo dos relatos vertiginosos e viciantes.
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A tríade sexo, drogas e rock'n'roll é insuficiente para descrever o conteúdo. Inicialmente, é possível ler o livro como um relato da perda progressiva da inocência, e de como a caçada à fama e à construção de uma personalidade mítica pode tomar o lugar da humanidade. A voz de Tyler, transcrita para a pele da literatura pelo ghost writer David Dalton, é elétrica e viva, às vezes esquizofrênica e inconclusiva.
Com esse perfil, ajuda a jogar luz sobre um período que quase sempre é mostrado como uma espécie de primavera da consciência do nosso tempo, os anos 60 e 70.
Tyler conta como um moleque punk e chapado de uma cidadezinha, Yonkers, jogou-se sem paraquedas num mundo que parecia uma gruta beatnik, em que todos se pareciam com Andy Warhol e, no fim da noite, entre festas e banheiras, surgiam figuras como Jimi Hendrix, Jim Morrison ou Brian Jones para saciar seu apetite vampiresco e sumir. "Tive minha primeira experiência religiosa fora do corpo naquele dia, cantando com os Beach Boys. Éramos eu e 6 mil caras do Iona College, todos cantando California Girls", relembra o elétrico iniciante.
Tyler mistura suas memórias com lendas urbanas sem nenhum pudor - afinal, o que de fato aconteceu? É assim que ficamos sabendo o que ele fez com um microfone Sennheiser do Apostolic Studios após saber que Hendrix tinha usado aquilo durante o sexo com uma garota. "Eu cheirei o microfone. O que deu um novo significado à expressão purple haze."
Era um tempo em que The Byrds eletrificava o ar com o hipnótico space rock Eight Miles High. As figuras que vão emergindo são fantásticas. Garimpeiros das liberdades individuais, junkies, aproveitadores. "Eu me sentava no carro no West Village do lado de fora do Tin Angel com Zal Yanovsky, do Lovin' Spoonful, e ficávamos conversando. Ele usava saia-calça, era um Keith Richards da Bleecker Street", conta. "Até hoje, adoro o cheiro rançoso de cigarro e cerveja que se sente nesses lugares."
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