Um cantinho infantil multilíngue
Escritora busca obras por todo o mundo para criar uma biblioteca livre, com a consultoria de crianças e jovens
Com milhares de livros na mão e uma ideia na cabeça, a paulistana Duda Porto de Souza decidiu buscar apoio para realizar o sonho de construir uma biblioteca infantil multilíngue. Embora tenha imensa dificuldade para ler por sofrer de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), a jovem de 25 anos já escreveu três livros infantis e não mede esforços para arrecadar obras para a biblioteca. De boca em boca, ou melhor, de e-mail em e-mail, o projeto chegou ao Centro Universitário Belas Artes, que abraçou a causa de imediato.
O espaço será construído no prédio da faculdade, na Vila Mariana, zona sul de São Paulo. Com inauguração prevista para maio de 2011, a biblioteca vai abrigar um acervo inicial de 22 mil livros, CDs, DVDs e jogos educativos para gestantes, crianças e jovens de até 20 anos. Apesar de estar em um espaço privado, o local terá acesso gratuito para todos os interessados.
Duda já reuniu até agora 19 mil obras e conta com os valiosos conselhos de um time de 20 amigos, com idades entre 4 e 18 anos, para as novas aquisições. "São crianças e adolescentes de diversos cantos do mundo que vivem realidades muito diferentes. Temos de ouvir o que elas têm a dizer, perguntar o que gostam de ler", afirma a escritora. Uma de suas conselheiras é a estudante carioca Ana Carolina Castro, de 12 anos. "Adoro ler. Espero que a biblioteca tenha vários livros legais e que outras crianças gostem dos que eu indiquei", diz a garota.
Apesar da pouca idade e da cara de criança, Duda tem mais de dez anos de bagagem profissional. Começou a trabalhar aos 13 com a jornalista e consultora de moda Erica Palomino. Também trabalhou na Galeria Leme e teve contato com estilistas renomados como Gloria Coelho, Walter Rodrigues, Alexandre Herchcovitch e a inglesa Viviane Westwood. Hoje, além de preparar o acervo infanto-juvenil, escreve para revistas como Dazed and Confused e Vogue, faz curadoria de exposições de arte no Brasil e no exterior, sempre de cunho social, e prepara o quarto livro - os três primeiros abordam a percepção da arte contemporânea pelas crianças.
Em nome da biblioteca, Duda investe tempo e dinheiro para comprar livros pelo mundo e deixa a timidez de lado para buscar doações e parceiros. "Não tenho vergonha de pedir porque é um projeto em que acredito. Quero contribuir não só para a formação, mas também para a alegria das crianças", explica.
A primeira conquista foi o apoio da Belas Artes. "Biblioteca aqui é uma paixão, a gente investe bastante. E esse projeto caiu como uma luva para nós. A gente já tinha vontade, mas não tinha intenção de fazer. Aí a Duda apareceu cheia de vontade e foi atrás para fazer acontecer o projeto, que é muito especial", afirma a assessora institucional da faculdade, Patricia Cardim. "Arrecadamos muitos livros com as multas das nossas bibliotecas e com o trote solidário. Doávamos as obras infantis para bibliotecas públicas que ajudamos a montar. Quando vimos o projeto da Duda, pensamos: "por que não ter a nossa?"."
As obras serão feitas pela faculdade durante as férias escolares e o mobiliário será doado por parceiros. "Temos a assessoria da nossa professora e pedagoga Maria Aparecida Alcântara, que nos explicou como fazer uma criança interagir em uma biblioteca infantil, com todos os detalhes para ela se sentir em casa", detalha Patricia.
Quando ficar pronta, a biblioteca terá sala de vídeo, brinquedoteca, espaço para leitura e para ouvir música. "É um projeto ambicioso e inovador, maravilhoso para desenvolver hábitos de leitura. E será também um espaço educador, de interação", garante a professora Leila Rabello, que coordena as bibliotecas da Belas Artes. Uma vitrine com livros e DVDs infantis foi montada em uma das bibliotecas da faculdade para divulgar o projeto. "Os alunos estão doando livros, é uma coisa que mexeu com eles. A ideia é que a biblioteca fique aberta todos os dias e tenha uma entrada própria para que as pessoas saibam do espaço", explica Leila.
PERSONALIDADES
O projeto conquistou também personalidades como a escritora Ruth Rocha, que doou 500 exemplares de suas obras, e a apresentadora americana Oprah Winfrey, que enviou um pacote com os títulos infantis preferidos. A biblioteca ganhou ainda o apoio do Blue Man Group, que doou milhares de livros em braile. Em uma recente viagem à Índia, Duda conseguiu uma doação de 10 mil publicações. "Pelos meus cálculos vamos chegar a 1 milhão de obras", anima-se.
Entre os parceiros, segundo Duda, está o canal de TV a cabo Nickelodeon, que deve fazer uma ação de marketing em seu site e um comercial com o personagem Bob Esponja, falando da biblioteca e incentivando a doação de livros. A empreendedora do projeto também está em contato com a grife Forum para uma possível parceria
O mascote da biblioteca, que ganhará o nome de Biblioteca Maria Eduarda Porto de Souza, em homenagem à idealizadora, será um coelho desenhado pelo artista Mehdi Pinson para a exposição Lápis Lapin, organizada por Duda em 2008. Por ter morado fora e viajado bastante, a idealizadora do projeto acabou se encantando pelos livros em língua original, daí a ideia de fazer a biblioteca multilíngue. Um dos textos preferidos é O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, que terá espaço especial na biblioteca, com edições de vários países e obras de análise do clássico francês.
"Acredito com todo o meu coração que uma criança que lê um livro como o Pequeno Príncipe tem muito menos chance de se envolver com drogas e criminalidade", afirma a escritora. Para as crianças que não puderem ir ao espaço, Duda garante: "Vou até elas, com livros."
Quem quiser doar livros deve enviar um e-mail para bibliotecainfantil@belasartes.br.
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