Ir para o conteúdo
ir para o conteúdo
 • 
Você está em Notícias >
Início do conteúdo

Um certo olhar sobre o 'homem invisível'

Documentário traça a rota do baião e joga luz sobre o poeta Humberto Teixeira

14 de janeiro de 2010 | 0h 00
Lauro Lisboa Garcia - O Estadao de S.Paulo

Humberto Teixera e Luiz Gonzaga, a dupla explosiva


O baião vem debaixo do barro do chão, já dizia Gilberto Gil numa de suas belas canções, inspirada certamente em seu mestre Luiz Gonzaga (1912-1989). O baião teve um rei famoso (o pernambucano Gonzaga) e um "doutor", o compositor e poeta cearense Humberto Teixeira (1915-1979), que permaneceu à sombra do parceiro de tantos clássicos como Asa Branca e Assum Preto (veja destaque ao lado). Mas o intelectual Teixeira - um dos pioneiros na defesa do direito autoral no Brasil - nunca reivindicou para si a invenção de um dos gêneros mais populares do Brasil junto com o samba. Ele apenas embrulhou para presente, ou seja, o urbanizou, e ajudou a propagá-lo, a partir do Sudeste brasileiro, em nível internacional. O documentário O Homem Que Engarrafava Nuvens, de Lírio Ferreira, que estreia amanhã em circuito nacional, contribui para jogar luz sobre a identidade desse "homem invisível", mas principalmente traça a rota do baião.

Não por acaso, a primeira imagem do filme é uma alameda do cemitério onde Teixeira está enterrado (e recebe uma visita da filha Denise Dummont, produtora do documentário) e a trilha sonora é a canção Légua Tirana. É um road movie, confirma Ferreira, e o baião é a música do êxodo, da migração. Portanto, do vaqueiro paramentado que desbrava picadas na mata a um passeio de bicicleta do talking head David Byrne pelas ruas pavimentadas de Nova York - da origem de seu universo à explosão da supernova -, a estrada simboliza o baião em movimento.

É também um "árido movie", em que a filha se reconcilia com o pai e o passado, no emocionante encontro com a mãe, a pianista e atriz Margarida Jatobá (que adotou o pseudônimo Margot Bittencourt), em Nova York, um dos pontos altos do filme. Outro momento tocante é quando Byrne canta Asa Branca, em inglês, usando um chapéu de couro em noitada do Forró in the Dark, na mesma cidade. O número musical coroa a sequência em que Byrne, depois de finalmente compreender a letra da canção, traça um paralelo entre os retirantes da seca do Nordeste brasileiro com o êxodo do homem do campo americano de Oklahoma e Texas, pelos mesmos motivos.

Não é à toa que Caetano Veloso escolheu gravar Asa Branca no exílio para expressar a saudade da terra natal. Mas também, como lembra Belchior, é curioso o fato de uma letra tão triste ser cantada com alegria nos forrós. O documentário procura explorar todas essas vertentes, desde detalhes sobre o universo característico das origens do baião e sua gente até sua expansão mundo afora.

"É também um filme sobre uma época", diz Ferreira. "Tem esse mote de ser um período de pós-guerra, o samba entrou em decadência e de 1945 a 1954 o baião assumiu como o grande gênero brasileiro." É um período ao qual especialistas se referem como o da transição entre o samba-canção e a bossa nova. "Papai não se incomodava de não ter o nome creditado pelo povo em relação a suas canções. O que o deixava contrariado era o fato de os historiadores ignorarem a importância e o sucesso que o baião tiveram naquele período", diz Denise Dummont. "O baião pode ser o elo perdido entre o samba-canção e a bossa nova", sugere a atriz. E o filme dá indícios dessa possibilidade ao colocar João Gilberto, em imagem rara, cantando sua composição Bim Bom, que diz: "É só isso o meu baião, e não tem mais nada não." Em depoimento no filme, Caetano Veloso replica um parecer de Gilberto Gil, que detecta a influência do baião na gênese da bossa de João.

Há também imagens raras do Rio antigo, de um encontro de Gonzaga e Teixeira, além dos Mutantes, Raul Seixas e trechos de outros filmes, resultado de minuciosa pesquisa de Antonio Venâncio, projeto desenvolvido desde 2002. A voz de Teixeira narrando a própria história foi extraída de duas entrevistas, uma para o pesquisador cearense Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez, e outra para a Rádio JB. A estrutura "machadiana" é semelhante ao que Ferreira utilizou em Cartola - Música para os Olhos.

O baião colocou o Nordeste na moda nos centros urbanos do Sudeste - com o crescimento da mão de obra dos migrantes e a força do canto de Luiz Gonzaga e Carmélia Alves. Como diz o compositor Otto no documentário, "Humberto era a pólvora e Gonzaga era o canhão. Quando os dois se juntavam... bum!!!!" O pavio se reacende no documentário "colocando Teixeira no tempo dele", nas palavras do diretor.

Essa força atômica influenciou de alguma maneira todos os entrevistados - nordestinos de várias gerações - ou os que aparecem nos significativos números musicais do documentário. Desde Caetano, Gil, Chico Buarque, Maria Bethânia, Gal Costa, Sivuca, Fagner, Elba Ramalho, Lenine até os mais jovens Lirinha e Otto. Segundo diretor, "ninguém está ali por acaso". O título do documentário vem de uma brincadeira de Teixeira. Denise lembra que na mansão Mandalai, que o pai mandou construir nas imediações do bairro de São Conrado, no Rio, as nuvens às vezes desciam tão baixo que ele dizia ser possível engarrafá-las.


Doze Clássicos

ADEUS, MARIA FULÔ (com Sivuca)
ASA BRANCA (com Luiz Gonzaga)
ASSUM PRETO (com Luiz Gonzaga)
BAIÃO (com Luiz Gonzaga)
DEUS ME PERDOE (com Lauro Maia)
DONO DOS TEUS OLHOS (autor de letra e música)
KALU (letra e música)
LÉGUA TIRANA (com Luiz Gonzaga)
PARAÍBA (com Luiz Gonzaga)
QUI NEM JILÓ (com Luiz Gonzaga)
RESPEITA JANUÁRIO (com Luiz Gonzaga)
XANDUZINHA (com Luiz Gonzaga)

Serviço
O Homem Que Engarrafava Nuvens (Brasil/ 2008, 106 min.) - Documentário. Dir. Lírio Ferreira. Livre. Cotação: Ótimo


Assista ao trailer do filme