Um lixão que mudou a vida de São Vicente
Vânia Maria Damacena, que prefere ser chamada de ''agente ambiental'', é a primeira mulher presidente da Cooperativa de Trabalho da Cidade Alta (Coopercial), cujos trabalhadores atuam na reciclagem de uma série de produtos, com destaque para os pneus, no município de São Vicente, no litoral paulista. O salário que recebe, assim o dos 150 cooperados, é de R$ 505, cerca de quatro vezes o que que retirava no passado. Por mais de 30 anos, o lixão de Sambaiatuba envergonhou os moradores da cidade. Além dos problemas de saúde causados pelo lixo a céu aberto, a área era invadida pelo tráfico de drogas e pela prostituição. Quando o caminhão chegava para despejar resíduos, os catadores, a exemplo de Vânia, se aglomeravam em busca de materiais que pudessem valer alguma coisa. ''Não tinha condição financeira de comprar os alimentos básicos. Meus filhos me pediam alguma coisa do mercado, mas eu não podia dar'', relembra a presidente.
Em 2002, a situação começou a mudar. A prefeitura fechou o lixão para criar um parque voltado aos interesses da comunidade. As pessoas aprendem técnicas de panificação, de costura, possuem acesso à informática e são incentivadas a respeitar o meio ambiente e a praticar a leitura. Os que se arriscavam no lixão agora fazem parte da coleta seletiva do município. Eles deixaram de ficar no meio da sujeira. Hoje, o trabalho é com carteira assinada, num galpão com equipamentos de proteção. A transformação resultou em um prêmio concedido pela Organização das Nações Unidas (ONU), como forma de reconhecer o sucesso da iniciativa.
O Instituto Via Viva, logo no início da revitalização do lugar, fechou uma parceria com a Coopercial para a reciclagem de pneus. Em média, são recolhidos por dia 200 pneus velhos, que não podem mais ser utilizados. Nos dias de sol, sem que a chuva atrapalhe a coleta, a cooperativa chega a receber 600 pneus para realizar o processo de contagem e separação. Feito isso, o instituto recolhe o material para levá-lo a São Paulo. ''O pneu inservível passa a ter um imenso valor social'', afirma o diretor do Via Viva, Jorge Gonçalves dos Santos. Já na capital paulista, eles são reciclados, tornando-se concreto, sistema de barreiras rodoviárias, calçadas e guias. ''O chamado concreto ecológico economiza até 30% de brita na produção'', conta Gonçalves.
De acordo com números divulgados pela Associação Nacional das Empresas de Reciclagem de Pneus e Artefatos de Borracha (Arepob), o Brasil descarta anualmente 360 mil toneladas de pneus. ''Se considerarmos que cada um pesa em média 10 quilos, temos ao todo 36 milhões de pneus que se tornam inservíveis todos os anos'', calcula o diretor-executivo da entidade, José Carlos Arnaldi. Ainda segundo Arnaldi, a maior parte, de 60% a 70%, é incinerada - processo chamado de coprocessamento - nos fornos de cimento para servir de energia para a indústria de cimento. Apesar desse tipo de queima controlar a emissão de poluentes, não é evitada a liberação de dióxido de carbono, um gás-estufa, na atmosfera.
* Bruno Victor Dela Páscoa Toranzo é aluno da Universidade Metodista de São Paulo.
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