Um mundo feito de colagens

Autor prepara volume com ilustrações e outro com textos sobre arte

O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2012 | 02h12

Amante de gatos, Ferreira Gullar não imaginava que teria um felino como parceiro artístico. "Certo dia, eu preparava uma colagem com recortes de jornal e deixei um esboço sobre a mesa", conta o poeta. "Quando voltei, percebi que meu gato passara por cima dos recortes e alterara completamente a ilustração que eu tinha feito. E ficou muito melhor! Deixei exatamente como estava."

A ilustração era uma das que compunham o livro Bananas Podres, editado pela Casa da Palavra. E o trabalho ficou tão bom que Gullar ganhou o prêmio Jabuti desse ano na categoria Ilustração. Os desenhos foram inteiramente pensados para o livro e acompanham os poemas que tratam de temas relacionados à sua própria memória, usando técnicas diversas, como pintura, recorte, colagens, desenho.

Com o sucesso, a Casa da Palavra prepara mais dois lançamentos - um de imagens com colagens inéditas feitas pelo poeta, ainda sem título definido, previsto para 2013 e que segue a linha do Zoologia Bizarra (um livro anterior); e outro de arte, intitulado Alquimia do Ver, previsto para sair até dezembro, reunindo 80 textos e obras de arte nacionais e estrangeiras selecionadas pelo autor.

"Adotei aquela situação casual como técnica", explica. "Vou ordenando os recortes de forma aleatória, sem nenhuma definição. Quando o resultado me faz pensar em algum objeto ou animal, eu crio um título e finalizo o trabalho."

Como artista, Ferreira Gullar revela-se um ser irrequieto, combinando a composição poética com a pintura de telas, a construção de móbiles. A forma, portanto, lhe interessa, seja qual for o instrumento utilizado.

Ao longo da carreira, passou por todos os processos formais da poesia - do soneto camoniano ao poema em prosa, do verso livre ao poema pré-concreto - até descobrir que dali por diante só seria possível repetir-se.

O concretismo pareceu-lhe o melhor caminho, mas, a partir do contato com o crítico Mário Pedrosa, produziu o Manifesto Neoconcreto, a Teoria do Não-Objeto, súmula de sua reação ao movimento concreto. / U.B.

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