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Um paraíso ainda ignorado, mas não perdido

Região continua pobre, mas há acesso à educação e floresta pode ser explorada sem ser destruída

14 de março de 2009 | 0h 00
Daniel Piza, SANTA ROSA DO PURUS (AC) - O Estadao de S.Paulo

Foram mais de mil quilômetros navegando pelo Rio Purus, desde Sena Madureira até o encontro com o Rio Curanja no território peruano. Foram seis dias de baleeira, dormindo em redes e tomando banho com água do rio, e mais dois dias de voadeira, dormindo nas pousadas sem conforto de Santa Rosa do Purus e Esperanza. Em sete desses dias choveu, e quase sempre torrencialmente. Telefone fixo só era encontrado nas prefeituras das três cidades do trajeto brasileiro (Sena, Manoel Urbano e Santa Rosa), celular não pegava nunca e o satelital, só algumas vezes. Mas nada disso se compara aos mais de dois meses que Euclides da Cunha levou para percorrer o mesmo trecho, sem contar que partira de Manaus, em sua odisseia de 1905.

Acompanhe o dia a dia e veja fotos da expedição

Euclides era o chefe brasileiro da comissão feita em parceria com o Peru para realizar as demarcações do Alto Purus, o trecho do rio que começa onde hoje se situa Manoel Urbano. O objetivo era verificar os primeiros mapas, feitos pelo explorador inglês William Chandless 40 anos antes, e definir a relação hidrográfica com outros rios do Brasil e do Peru. Euclides teve percepções inéditas sobre o rio - como sua característica de leito variável - e confirmou quase todas as medições de Chandless. Mas a viagem foi cheia de percalços: encalhes, conflitos, malária, beri-béri e outros males acometeram Euclides e os demais. Mais importante do que o trabalho como enviado do chanceler Barão do Rio Branco, foi o impacto da floresta em sua mente.

Muitas das impressões que o abalaram continuam presentes. Ele chamou a Amazônia de "um deserto" e descreveu sua combinação de grandiosidade com tristeza. O Alto Purus continua com o clima de abandono, como se fosse quase inabitado, com longos trechos de rio sem manifestação humana. Por isso, a natureza continua muito semelhante; a mata permanece quase toda intocada, com suas imbaúbas e canaranas, seus botos e jabutis, suas garças e andorinhas, seus tambaquis e pirarucus. As riquezas continuam pouco exploradas, quando não indescobertas, e a ameaça de doenças - agora mais a anemia e dengue do que a malária e beri-béri - é uma constante por aqui.

As diferenças, porém, são significativas. Euclides se revoltou com a condição de trabalho dos seringueiros ("Ele trabalha para escravizar-se") e quis escrever sobre ele o "segundo livro vingador", ou seja, fazer por ele o que fizera pelos habitantes do semiárido em Os Sertões (1902). Mas Euclides apostou na exploração da seringa; defendeu a criação de ferrovias e hidrovias para escoamento da borracha para mercados externos; quis que a terra fosse desbravada, elogiando o modo como os bandeirantes haviam expulsado índios. Se chamou a Amazônia de "um paraíso perdido", foi porque se dizia "pessimista incurável", mas, engenheiro militar e positivista, tinha sua receita para levar progresso ao paraíso.

Hoje o Alto Purus não tem mais seringueiros (nem caucheiros, seus equivalentes e rivais peruanos). De Manoel Urbano até a Boca do Chandless o que mais encontramos foram ex-seringueiros que estão aposentados e vivem, como seus filhos e netos, de plantar, caçar e pescar. Desse mesmo modo vivem os índios da região, que Euclides não encontrou porque haviam sido corridos para longe dos seringais.

Kaxinawás e kulinas são predominantes no rio, principalmente a partir da Boca do Chandless e até o lado peruano. Também as três cidades, claro, são novidades no cenário - e, com o asfaltamento da estrada (BR-364) que vai de Sena Madureira a Manoel Urbano, esta última de apenas 6 mil habitantes, tendem a crescer bastante. Isso não vale para Santa Rosa, aonde só se chega de barco ou avião.

Esta região da Amazônia continua muito pobre, como Euclides a encontrou, e a única vantagem parece ser o acesso à educação: os netos dos seringueiros já não são analfabetos como seus avós, ainda que tenham muitos anos de atraso escolar. A noção de progresso mudou nestes cem anos desde a morte do escritor, e agora a floresta pode começar a ser explorada sem ser destruída, desde que ela seja estudada em seu potencial agrícola, de cosméticos, remédios, madeiras certificadas e outros produtos, inclusive derivados do látex. Resta saber se daqui a cem anos, na Amazônia, o homem e a natureza continuarão a ser inimigos, como disse Euclides, ou se o paraíso perdido pode passar a ser o paraíso desenvolvido.

O PROJETO

Para celebrar o centenário de morte do autor de Os Sertões, o Grupo Estado iniciou ?O Ano de Euclides? - um trabalho jornalístico, cultural e multimídia

Esta semana: Visita à região do Alto Purus, reeditando a expedição de Euclides. Cobertura diária no Estado, portal estadao.com.br e na Rádio Eldorado

Abril: Caderno especial Amazônia Revisitada. Documentário no

portal e programa na Eldorado Abril a julho: Seção Euclides

no Estadão, no caderno Cultura

Agosto: Seminário internacional sobre a obra euclidiana.

Edição especial sobre o encontro, no Cultura

Setembro a dezembro: Publicações especiais