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Um pilar da raiz brasileira em mais de oito décadas

A cantora e apresentadora Inezita Barroso completa 85 anos hoje esbanjando vitalidade em sua luta pela preservação dos valores caipiras e folclóricos do País

04 de março de 2010 | 0h 00
Lucas Nobile - O Estadao de S.Paulo

RONDA - Com uma de suas seis violas, Inezita relembra seu 1.º disco

Na sala de sua casa, no bairro de Santa Cecília, onde até o sofá foi retirado para abrigar seus 22 passarinhos em dezenas de gaiolas, ela comemora hoje 85 anos de vida. Com uma lucidez e uma memória assombrosas, Inezita Barroso está sempre rodeada de gente, mas, no fundo, sente-se solitária.

A solidão, que não tem a ver com valores afetivos - já que ela enche a boca de encantos para falar de amigos e da família, principalmente de seus bisnetos -, diz respeito à falta de aliados na longeva batalha para não deixar morrer o cancioneiro brasileiro de raiz, com especial devoção à música caipira. "Essa música moderninha de hoje, que chamam de sertanejo, não tem valor. É sempre a mesma coisa, com a mulher que abandonou o marido. Com a agravante que eles só tocam no mesmo ritmo, parece um realejo. É completamente diferente da música caipira e a folclórica, que têm vários ritmos, como chamamé, catira, cateretê e tantos outros", diz Inezita.

A cruzada, que extrapola o campo musical, busca também a preservação do modo simples de agir e de ser do povo caipira. "A Globo se esforça para destruir, mas não consegue - está dentro da gente. É ridículo ver um personagem do campo falando com sotaque carioca", explica a apresentadora.

Na longa estrada da vida, Inezita carrega uma vida profissional de 55 anos como cantora, lembrando com detalhes a gravação de seu primeiro disco. Acostumada a cantar o repertório de Dolores Duran, Noel Rosa e Ary Barroso em boates como Oasis, em São Paulo, e Vogue, no Rio de Janeiro, ela viu a carreira deslanchar com Moda da Pinga, de Laureano, no lado A, e Ronda, de Paulo Vanzolini, no B, pedidas até hoje nas apresentações pelo País.

Da faceta de apresentadora, a Dama Caipira ostenta a marca de ter o programa de TV que está há mais tempo no ar, sem nunca deixar de ser exibido nem trocar de emissora. São 30 anos de Viola, Minha Viola, na Cultura, exibido sempre aos domingos, às 9 horas, com exigências pertinentes. "O Moacir Franco e o Sérgio Reis já tentaram levar tecladistas, eu não deixo entrar porque isso destoa da música caipira, eles me entendem", diz Inezita. A postura firme é mais uma forma de respeito ao público.

Até a segunda grande paixão da apresentadora, a natação, fica de lado por causa da falta de tempo. As gravações do Viola, Minha Viola, sempre às tardes das quartas-feiras, no Teatro Cultura, na Avenida Tiradentes, são compromisso sagrado. "Quando pegávamos a estrada para gravar o programa, eu cheguei a viajar de bicicleta e em carro de boi, por respeito ao meu auditório. Há quatro anos, sofri um acidente sério em casa, levei um tombo e rasguei minha canela. Os médicos disseram que só me dariam alta em uma semana. Não podia esperar e fugi do hospital, detesto reprise. A vida é assim, eu gosto de trabalhar", relembra Inezita. A história se repetiu no ano passado. Com suspeita de pneumonia, a cantora não abandonou um público de 6 mil pessoas que se espremiam debaixo de chuva no Sesc Itaquera. "Eu vou pôr a viola lá no alto. Se tivesse mais aliados nesta luta... Mas não gastei 55 anos da minha carreira à toa. Hoje vejo cada vez mais orquestras de violas e fábricas do instrumento para crianças. É um orgulho tremendo."