Um seminarista nascido para matar
Novo livro de Rubem Fonseca é policial que mistura citações em latim, matadores de aluguel, picardia carioca e culinária alemã
Rubem Fonseca tinha terminado O Seminarista quando encerrou seu contrato com a Companhia das Letras. Depois de assinar com a editora carioca, Ediouro, ele fez ainda alguns retoques. O foco do livro é, evidentemente, policial. José é um ex-seminarista que se transforma em matador de aluguel conhecido por Especialista (que também aparece nos contos de Ela e Outras Mulheres). O leitor, aliás, só descobre que ele abandonou a batina depois de alguns capítulos, mas desconfia de algo por conta de profusão de citações em latim.
Ele recebe as "encomendas" de um intermediário conhecido por Despachante até o momento em que decide novamente abandonar o ofício - apaixonado por Kirsten, alemã que traduz livros brasileiros, José se aposenta, desfazendo-se de suas armas. O idílio, no entanto, é curto, pois logo ele começa a receber dicas de que seria alvo de um antigo cliente. Pior: Despachante, até então um amigo confiável, encabeça a lista dos prováveis interessados em seu desaparecimento.
O Seminarista é seu primeiro romance e surge quatro anos depois de Mandrake, a Bíblia e a Bengala. Texto fluente, provoca uma vaga lembrança dos clássicos americanos (especialmente de Raymond Chandler), mas se impõe como brasileiro graças à sua picardia tipicamente carioca. Fonseca continua hábil em conduzir a história, fornecendo aos poucos os detalhes para o leitor, prendendo-o à narrativa. O ponto negativo, no entanto, é a quantidade de digressões que pouco ou nada acrescentam à história, um desvio de percurso que poderia ser mais bem aproveitado. Como quando disseca a forma das diferentes armas ou o sabor dos pratos da culinária alemã - Fonseca parece se divertir com a busca do leitor por algum sentido naquele desvio de rota.
O livro chega com uma tiragem inicial de 20 mil exemplares, e parte deles virá acompanhada de um brinde, candidato a já se tornar objeto de culto: uma edição limitada do conto A Arte de Andar nas Ruas do Rio de Janeiro, que vem acompanhado de um ensaio fotográfico de Zeca Fonseca, filho do escritor. "É uma relação afetiva dos dois com a cidade", conta Pires, ajudando a desvendar um pouco do mistério que envolve a vida pessoal do mais novo autor clássico nacional de seu elenco.
Os hábitos de Fonseca, aliás, só são conhecidos a partir de dicas de amigos. Assim, sabe-se que dorme pouco, acorda muito cedo, lê muito (sobre praticamente tudo), adora cinema (foi o primeiro crítico da revista Veja) e música (rock inclusive), morou algum tempo no mitológico hotel Chelsea de Nova York, conhece como ninguém a literatura americana e, atendendo ao clamor do sangue luso, não só torceu durante muito tempo pelo Vasco da Gama como ainda hoje não resiste a um bacalhau com brócolis.
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