Vinda do livro digital é tema que atrai público em Frankfurt
Enquanto uns adiam sua chegada, o Google anuncia loja com obras eletrônicas de qualquer dispositivo no próximo semestre
O inglês Richard Charkin, diretor executivo da editora Bloomsbury, é um homem bonachão, que arranca gargalhadas com quase tudo o que fala. Ontem, porém, durante um encontro sobre o futuro do e-book (que atraiu o dobro de pessoas em relação à capacidade do espaço designado pelos organizadores da Feira de Frankfurt), ele conseguiu ser sério uma vez: "Neste Natal, duvido que alguém vá gostar de receber um livro eletrônico, preferindo ainda o formato no papel. Mas, não sei como será no próximo ano."
Como era esperado, o livro digital atrai pequenas multidões quando é discutida sua vinda. E o encontro de ontem recebeu um upgrade com o anúncio da empresa Google, que planeja lançar uma loja online de livros eletrônicos de qualquer dispositivo com um navegador da Web, ameaçando o crescente mercado de leitores dominado pelo Kindle, da Amazon. O projeto pretende lançar edições no primeiro semestre do próximo ano, oferecendo inicialmente cerca de meio milhão de e-books em parceria com as editoras com as quais já negociou os direitos digitais. "Não estamos focados em apenas um tipo de suporte eletrônico", disse Tom Turvey, diretor de Parcerias Estratégicas do Google, em uma coletiva de imprensa em Frankfurt.
O anúncio veio uma semana depois de a Amazon ter confirmado que vai liberar o uso do Kindle para mais de cem países além dos Estados Unidos, elevando sua posição de liderança em um mercado pequeno, mas de crescimento rápido, em que os seus concorrentes incluem o Sony Reader"s.
"São decisões importantes, pois o consumidor ainda não sabe como escolher", comentou Ronald Schild, diretor da empresa de marketing MVB, que participou do debate ao lado de Richard Charkin. Mas, ele acredita, a indecisão logo vai terminar. "Hoje, com nossa rotina dominada por aparelhos eletrônicos, as pessoas leem mais textos em meios eletrônicos do que em papel", observou Andrew Savicas, vice-presidente da O"Reilly Media, editora norte-americana cujo fundador, Tom O"Reilly, cravou o termo Web 2.0. Os números confirmam uma leve transferência para o mercado editorial - segundo a empresa de pesquisas Forrester, cerca de 3 milhões de leitores digitais serão vendidos nos Estados Unidos, contra uma previsão inicial de um milhão, um aumento favorecido por preços mais baixos, variação no conteúdo e melhor distribuição.
O problema mais crucial continua sendo a discussão sobre direitos autorais. Contra as reclamações de que vai disponibilizar livros fora de catálogo mas cujos direitos ainda persistem, o Google rebateu, afirmando que a versão eletrônica abrirá novas possibilidades comerciais para a obra.
"Esse assunto é o mais delicado nessa história", comentou a agente literária Lúcia Riff ao Estado. Apesar de o mercado brasileiro ainda estar ligeiramente distante do mundo digital, ela contou que já acrescenta adendos aos contratos de seus autores (e ela edita escritores do naipe de Luis Fernando Verissimo) incluindo o formato e-book. "É preciso fazer uma adaptação, ainda com o mercado incerto."
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