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Voz das minorias

Ao retratar o desamparo de forma poética e com objetividade, a alemã nascida na Romênia Herta Müller tornou-se a nova vencedora do Nobel de literatura

09 de outubro de 2009 | 0h 00
Ubiratan Brasil - O Estadao de S.Paulo

Narradora do desamparo e voz das minorias alemãs que vivem nos países da Europa central - tais qualidades garantiram à escritora alemã nascida na Romênia Herta Müller o prêmio Nobel de literatura, divulgado ontem pela manhã, em Estocolmo, na Suécia. "Sua obra desenha as paisagens dos desamparados com a concentração da poesia e a objetividade da prosa", justificou a Real Academia de Ciências, que tentou inutilmente manter o sigilo da escolha - Herta escalou posições de forma vertiginosa na bolsa de apostas britânica Ladbrokes nos últimos dias, até ficar em segundo lugar, atrás do israelense Amós Oz.

No ano passado, a mesma casa fechou as previsões para o Nobel de literatura horas antes do anúncio da decisão, graças a um aumento espetacular nas apostas pelo francês Jean-Marie Le Clézio, que saiu vencedor. As especulações sobre vazamento de informações aumentaram com o fato de novamente a editora de cultura do jornal sueco Dagens Nyheter, Maria Schottenius, acertar sua previsão sobre o ganhador, lançada há dias - no ano passado, ela cravou Le Clézio. Questionada, ela respondeu, rindo, que foi "bruxaria", negando o privilégio da notícia.

Surpresa mesmo estava Herta Müller, segundo informaram representantes de sua editora, Carl Hanser Verlag. "Estou feliz e nem consigo acreditar", afirmou ela, por meio de um comunicado. Aos 56 anos, Herta é a 12ª mulher a receber o Nobel de literatura (e 13º autor de língua alemã). A cerimônia de entrega acontece no dia 10 de dezembro, na Suécia, onde lhe será entregue o prêmio de US$ 1,4 milhão.

Com apenas uma obra publicada em português, O Compromisso, editada pela Globo em 2004 (veja abaixo), Herta vive em Berlim desde 1987, quando fugiu devido aos excessos do regime comunista da Romênia, que exigia sua participação no serviço secreto além de impedi-la de publicar seus livros. Ela nasceu na cidade de Nytzkydorf em 1953, em uma família alemã, minoria no país. Como muitos alemães que viviam na Romênia, sua mãe foi deportada para a antiga União Soviética, onde passou cinco anos em um campo de trabalho na Ucrânia.

A experiência inspirou o mais recente livro de Herta, Atemschaukel, uma tentativa de revelar os motivos do silêncio de sua mãe e de outros romenos-alemães de sua geração, que não se atreviam a falar sobre o tempo que passaram na antiga URSS.

Estabelecer uma ponte entre essas duas culturas é o que move a literatura de Herta Müller que, ainda jovem, estudou filologia germânica e romena, na Universidade de Timisoara, onde teve seu primeiro contato com jovens escritores que falavam alemão, opostos ao regime de Nicolae Ceausescu.

Aos poucos, alimentou sentimentos de revolta que inspiraram seus livros iniciais. Niederungen, o primeiro, esperou quatro anos até ser publicado, em 1982 , sob censura. O livro, assim como em Drückender Tango, retrata a vida em um pequeno povoado onde se fala alemão e mostra a corrupção, a intolerância e a opressão que encontra. Uma cópia da história original, sem os cortes promovidos pelo governo, chegou na Alemanha dois anos depois, onde foi assim publicada.

As críticas publicadas pela imprensa romena contrastaram com os elogios divulgados pela alemã - Niederungen, aliás, recebeu o Prêmio Aspekte de melhor estreia em língua alemã do ano, em 1984.

Sentindo a pressão aumentar, Herta mudou-se para a Alemanha ao lado do marido, Richard Wagner. Lá, sentiu-se livre para retratar de forma detalhada a vida cotidiana em uma ditadura estagnada em obras como Der Fuchs War Damals Schon der Jäger.

Aos poucos, tornou-se conhecida pela militância literária em histórias como A Terra das Ameixas Verdes (veja trecho abaixo), que dedica aos amigos romenos assassinados pelas forças do ditador Ceausescu; e O Compromisso, que acompanha a trajetória de uma mulher que costura bilhetes com dizeres amorosos ("Case comigo") nos trajes de homens que viajam para a Itália.

Tão logo a conquista de Herta Müller foi divulgada, começou a comemoração. "É inspirador que agora, quando se comemoram os 20 anos da queda do Muro de Berlim, seja premiada uma obra marcada pela resistência contra a opressão e o totalitarismo", disse a primeira-ministra alemã Angela Merkel. COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

OS PREMIADOS


2009 - Herta Müller
(Alemanha)
2008 - Jean-Marie
Gustave Le Clézio (França)
2007 - Doris Lessing
(Inglaterra)
2006 - Orhan Pamuk
(Turquia)
2005 - Harold Pinter
(Inglaterra)
2004 - Elfriede Jelinek
(Áustria)
2003 - J. M. Coetzee
(África do Sul)
2002 - Imre Kertész
(Hungria)
2001 - V. S. Naipaul
(Inglaterra)
2000 - Gao Xingjian (China)
1999 - Günter Grass
(Alemanha)
1998 - José Saramago
(Portugal)
1997 - Dario Fo (Itália)
1996 - Wislawa
Szymborska (Polônia)