À beira do caos, Iêmen tenta se reerguer sem ditador
País enfrenta movimento separatista, radicais e instabilidade após Saleh deixar o poder
SÃO PAULO - Os mais de 33 anos em que Ali Abdullah Saleh manteve o poder absoluto no Iêmen não trouxeram benefícios aos 23 milhões de habitantes do país às margens do Golfo de Áden. A população iemenita é extremamente pobre. As oportunidades de trabalho, estudo e o acesso à saúde, muito restritas. A expectativa de vida no Iêmen é de 63 anos de idade e falta quase tudo no país: água encanada e potável, energia elétrica, estradas e aeroportos.

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Em meio a tanto atraso, o Iêmen foi atingido em cheio pelos distúrbios na Tunísia, Egito e Líbia. Em poucos dias, milhares de iemenitas se rebelassem e saíram às ruas contra a ditadura de Saleh. Após dez meses de confrontos - que deixaram centenas de mortos e feridos, e afetaram a vida de 100 mil pessoas -, o presidente assinou no dia 23 um acordo de transferência de poder ao seu vice. O pacto prevê um governo de união nacional temporário, até que eleições possam ser realizadas em fevereiro.
Mas a situação na capital, Sanaa, e em outros focos dos distúrbios ainda está longe da normalidade. Milhares de iemenitas continuam a protestar, revoltados com os termos do acordo que tirou Saleh do poder. O texto final concede imunidade ao ex-ditador e à sua família. As clivagens tribais complicam ainda mais a disputa pelo poder, com diversos clãs se digladiando para arrematar em áreas específicas do país. Há até mesmo grupos que continuam leais a Saleh.
Os chefes tribais mobilizam verdadeiros Exércitos para enfrentar clãs rivais e as Forças Armadas do Iêmen. Os prejuízos na miserável capital iemenita foram estimados em US$ 8 bilhões.
Rivalidades
Há ainda tensões entre minorias xiitas e salafistas sunitas apoiados pela Arábia Saudita. Esses confrontos se concentram na extensa fronteira saudita-iemenita - uma espécie de terra de ninguém que virou terreno fértil para a Al-Qaeda. Extremistas e campos de treinamento do grupo fundado por Osama bin Laden passaram a ocupar várias cidades e vilarejos da região. As autoridades nacionais pouco ou nada podem fazer para controlar os militantes, influenciados por chefes tribais que lhes garantem abrigo e proteção.
Além de lidar com seus graves problemas internos, o Iêmen também sofre com um grande influxo de refugiados vindos da Somália, que frequentemente realizam serviços braçais e se abrigam em grandes favelas nas regiões de Áden e Sanaa - uma situação melhor do que o caos vivido no Estado falido do país africano. Os mais de 200 mil refugiados somalis tendem a se tornar um enorme contingente humano sem trabalho, comida ou meios de sobrevivência caso a situação política do Iêmen piore ainda mais.
Há atualmente dois grandes cenários possíveis para o futuro imediato do país. O primeiro, otimista, seria a manutenção do governo de união nacional no poder e a aceitação dos resultados eleitorais por parte de líderes tribais, políticos e sectários - algo extremamente difícil de se conseguir em um país onde etnia e filiação tribal são muito mais fortes do que a identidade nacional. Esse cenário daria credibilidade e força para o governo de Sanaa assumir o controle efetivo de todo o país, de suas fronteiras e iniciar as reformas político-sociais e de infraestrutura que o Iêmen tanto necessita.
No segundo - mais pessimista e provável -, as eleições de fevereiro seriam contestadas por líderes tribais e os militantes da Al-Qaeda, fortalecidos, endureceriam a luta jihadista. Dessa forma, a tendência seria a formação de alianças locais entre clãs que na prática dividiriam o Iêmen e criariam um vácuo de autoridade central. Em outras palavras: o mais pobre país da Península Arábica mergulharia de vez em uma guerra civil, abrindo caminho para a interferência de países como a Arábia Saudita, EUA e Irã nos rumos da nação.
SOLLY BOUSSIDAN É REPÓRTER FREELANCER E COLABORADOR DO 'ESTADO'. COBRIU OS PROTESTOS NO IÊMEN E NO BAHREIN
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