Além de rádios e TVs, Kirchners querem controlar jornais
‘Partir a coluna vertebral e arrancar os olhos’ é o método que secretário da presidente promete aplicar
Cristina acena ao lado de seu marido, Nestor, durante evento de campanha em junho deste ano
BUENOS AIRES - O governo da presidente Cristina Kirchner pretende controlar os jornais impressos na Argentina por intermédio de uma intervenção da empresa Papel Prensa, a única fábrica que produz papel para jornais em todo o país. As intenções da presidente Cristina foram explicitadas pelo secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, que teria dito – segundo informações publicadas nesta segunda-feira pelos jornais Clarín e La Nación – que o governo tem um plano para controlar a totalidade da empresa.
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A denúncia tem um efeito explosivo, já que ocorre na véspera da decisiva votação da controvertida Lei da Mídia no Senado. A lei, que estará no plenário nesta sexta-feira, implica em restrições para a atividade de canais de TV e estações de rádio e abre caminho para o surgimento de novos grupos de mídia aliados do casal Kirchner. O principal alvo da lei é o Grupo Clarín, com o qual o governo Kirchner está em pé de guerra desde o ano passado. Tudo indicava - até estas denúncias sobre a eventual futura intervenção da Papel Prensa - que o governo conseguiria amanhã a aprovação da Lei de Mídia.
A Papel Prensa é controlada pelo Grupo Clarín (que tem 49% das ações), o La Nación (que possui 22,49%) e o próprio Estado argentino (que domina 27,46%). A empresa abastece a maior parte dos jornais argentinos.
Durante uma reunião com os diretores da Papel Prensa, no dia 14 de setembro, Moreno, um dos mais polêmicos integrantes do gabinete de Cristina Kirchner – famoso por iniciar reuniões com empresários colocando sua arma em cima da mesa - afirmou verbalmente que o governo pretende intervir a Papel Prensa e ressaltou que para implementar essa ideia “tentará achar a maneira de reduzir seu valor para comprá-la ou desapropriá-la”. Uma das alternativas especuladas na reunião foi a de provocar a queda da cotação de suas ações.
Segundo Moreno, a medida seria tomada por “expressas instruções da senhora presidente” da República.
Coluna vertebral
Moreno não descartou que o governo possa aplicar um decreto ou utilizar os sindicatos “mais agressivos” para conseguir implementar esse plano.
Depois, Moreno arrematou: “tenho meus ‘muchachos’ (rapazes), especialistas em quebrar colunas vertebrais e arrancar os olhos de quem fale” sobre as declarações que fez na reunião.
Dos oito diretores da Papel Prensa, três representam o Estado, um é independente e os quatro restantes pertencem ao Clarín e o La Nación.
O conteúdo da reunião de Moreno com os diretores foi confirmado no dia 30 de setembro perante um tabelião por Carlos Collasso, um dos conselheiros que representam o Estado argentino na empresa. Dias depois, Collasso voltou a confirmar sua versão perante o juiz federal Octavio Aráoz de Lamadrid.
O Conselho de Vigilância comunicou o Grupo Clarín sobre as polêmicas declarações de Moreno. O grupo, por seu lado, decidiu apresentar uma denúncia na Justiça contra o secretário de Comércio Interior por “abuso de autoridade e intimidação”.
O Grupo Clarín afirma que é “objeto de interferências ilegítimas por parte de funcionários do Poder Executivo Nacional que, além de constituir delito, colocam em grave risco a garantia constitucional da liberdade de imprensa”.
A eventual decisão de intervir na Papel Prensa, se for concretizada, será um capítulo adicional no intenso confronto que os Kirchners mantêm com a imprensa argentina.
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