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ANÁLISE - Isolar a Rússia é inviável para os EUA

15 de agosto de 2008 | 20h 22
SUE PLEMING - REUTERS

A despeito das ameaças, o governo

Bush não pode se dar ao luxo de isolar a Rússia como retaliação

pela incursão militar na Geórgia, afirmaram analistas ouvidos

na sexta-feira.

"Parece-me que os EUA precisariam ter uma razão muito boa

para romper relações com a Rússia e voltar aos dias negros da

Guerra Fria", disse à Reuters Charles Kupchan, da entidade

Conselho de Relações Exteriores.

"Não acredito que os fatos até agora forneçam tal razão.

Cada uma das partes precisa demais da outra", acrescentou.

Muita coisa seria afetada caso as relações voltassem aos

maus tempos da Guerra Fria -- cooperação na ONU, controle dos

programas nucleares do Irã e Coréia do Norte, acesso dos EUA à

Ásia (especialmente Afeganistão) e o mercado de energia.

Até agora, a reação de Washington é primordialmente

retórica, com manifestações de apoio à aliada Geórgia, que na

semana passada enviou tropas para tentar retomar o controle da

república separatista da Ossétia do Sul, atraindo a retaliação

militar de Moscou, que desde a década de 1990 garante a

autonomia dessa região.

Os EUA excluíram a Rússia das discussões sobre o tema no G8

(grupo dos sete países industrializados, mais a Rússia) e

cancelaram um exercício naval conjunto. Além disso, o governo

disse que a participação russa em entidades globais como a

Organização Mundial do Comércio poderia ser ameaçada caso a

ação militar prossiga.

MOSCOU FORA DA ROTA

Rice, cuja formação é de especialista em União Soviética,

foi nesta semana à França e à Geórgia para discutir a crise,

mas não esteve em Moscou. O Departamento de Estado garante que

ela mantém contato telefônico freqüente com o chanceler russo,

Sergei Lavrov, mas o fato é que ela passa muito mais tempo

demonstrando apoio ao governo de Tbilisi.

"Nunca lucramos muito por não conversar com pessoas com as

quais não vemos um terreno comum. Nunca acreditei que sejamos

muito eficazes tentando jogar o jogo da recompensa e punição

com uma nação tão grande quanto a Rússia", disse James Collins,

ex-embaixador dos EUA em Moscou, hoje analista do Fundo

Carnegie para a Paz Internacional.

As relações russo-americanas se desgastaram acentuadamente

nos últimos anos, especialmente por causa dos planos dos EUA de

instalar um escudo antimísseis no Leste Europeu, o que Moscou

teme que altere o equilíbrio estratégico na sua área de

influência.

Também há divergências a respeito da independência de

Kosovo e da adesão da Geórgia à Otan. Piorando ainda mais o

clima, na quinta-feira a Polônia aceitou que os EUA instalem

dez interceptadores de radares em seu território.

"O acordo com a Polônia certamente eleva as apostas, e

acredito que o momento foi qualquer coisa menos uma

coincidência", disse Kupchan.

Especialistas dizem que cabe aos EUA demonstrar sua

insatisfação com as ações na Geórgia, mas sem fechar as portas

para um parceiro estratégico como a Rússia.

"Não devemos tirar o olho da questão imediata, pois pela

primeira vez desde o fim da União Soviética tropas russas

invadiram e estão ocupando outro país", disse Strobe Talbott,

ex-alto-funcionário do Departamento de Estado, hoje presidente

da Brookings Institution.

"Mas isolar a Rússia não é realmente uma opção, ela não

ficará isolada. É grande demais, poderosa demais", acrescentou.

Para Kupchan, ainda é cedo para traçar cenários mais

negativos. "Se por uma razão ou outra os russos mantiverem a

ocupação, forem até Tbilisi e derrubarem [o presidente Mikheil]

Saakashvili, aí provavelmente estaremos num mundo onde a Rússia

se encontra fora da comunidade de nações e algum tipo de

rivalidade militarizada deve retornar. Tirando isso,

preservemos nosso julgamento até termos uma noção melhor da

história".



Tópicos: GEORGIA, RUSSIA, EUA