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ANÁLISE-Lugo supera 1a crise, mas deve enfrentar novos conflitos

05 de setembro de 2008 | 16h 22
DANIELA DESANTIS - REUTERS

O presidente do Paraguai, Fernando

Lugo, saiu-se bem em sua primeira crise política, mas a manobra

que fortaleceu a liderança dele anuncia a eclosão de novos

conflitos em um país tradicionalmente instável.

Nesta semana, Lugo precisou administrar um embate

responsável por dividir o Senado e que pareceu intensificar-se

após a denúncia dele sobre um complô para derrubá-lo do poder,

supostamente orquestrado pelo ex-presidente Nicanor Duarte e

pelo general aposentado Lino Oviedo, dois personagens

impopulares e tradicionais da cena política paraguaia.

Com o apoio do grupo liderado por Oviedo, Duarte pretendia

tomar posse como senador ativo apesar do rechaço dos

parlamentares leais a Lugo, que se opunham a uma manobra

considerada inconstitucional.

Apesar de o presidente ter tentado distanciar-se

publicamente da disputa argumentando se tratar de um problema

do Legislativo, a intervenção dele ao denunciar a conspiração

motivou uma onda de apoio internacional e manifestações de rua

favoráveis ao dirigente.

Todos os países latino-americanos e a maior parte dos

organismos internacionais da região saíram em defesa de Lugo,

enquanto milhares de pessoas ocupavam a região central de

Assunção exigindo a punição dos homens identificados como

conspiradores.

"Acho que o presidente saiu fortalecido disso tudo porque a

denúncia, elaborada de forma estratégica pelo governo,

permitiu-lhe romper vínculos com pessoas que o ligavam ao

passado", afirmou à Reuters o analista político e ex-senador

Gonzalo Quintana, que já ocupou o posto de presidente do

Congresso.

"Tanto o conflito no Senado como a crise advinda da

denúncia de golpe foram resolvidos. O governo precisa agora

orientar seus esforços para melhorar o padrão de vida dos

paraguaios. Se conseguir sair-se bem nessa tarefa, conseguirá

manter-se no poder", acrescentou.

A crise foi considerada superada na quinta-feira, quando o

Senado ratificou como senador o suplente de Duarte e concedeu a

esse o cargo de senador vitalício, com voz mas sem direito de

voto no plenário.

NOVA HEGEMONIA À VISTA

Na opinião da analista política Milda Rivarola, apontada

por Lugo como chanceler, mas que rejeitou o convite pouco antes

de tomar posse, a coalizão de governo que substituiu no poder o

Partido Colorado (conservador) enfrentará no futuro,

necessariamente, dificuldades semelhantes a essa.

"Vamos ter que nos acostumar com o fato de que a transição,

este período que estamos atravessando, será construída sobre a

crise. O importante é encontrar mecanismos de solução pacífica

e legal", afirmou Rivarola, ao jornal La Nación.

"Acredito que a hegemonia colorada destruiu-se e que se

está construindo uma hegemonia distinta, com muita dificuldade.

E isso supõe que haverá crises. A crise, segundo vejo, ainda

não chegou ao fim e o novo ainda não se estabeleceu",

acrescentou.

Os colorados governaram o Paraguai nas últimas seis

décadas, incluindo aí 35 anos da ditadura comandada pelo

general Alfredo Stroessner, período durante o qual construíram

um Estado baseado em um esquema clientelista e de sinecuras.

Lugo tomou posse prometendo lutar contra os velhos vícios

do passado, combater a pobreza e a corrupção e melhorar o

padrão de vida de uma população sedenta por mudanças.

O ex-chanceler Diógenes Martínez disse que o conflito

conferiu a Lugo a chance de confirmar sua liderança e

sedimentar a governabilidade em uma nação marcada

historicamente por tentativas de golpe de Estado e atos

violentos no cenário político.

"Ele teve sorte. Em meio a essa situação, Lugo pôde

aproveitar uma chance de formar uma maioria parlamentar da qual

nunca dispôs. E isso lhe garantiria a possibilidade de governar

com tranquilidade", disse Martínez.

(Reportagem adicional de Mariel Cristaldo)



Tópicos: PARAGUAI, LUGO, ANALISE