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Após 47 anos, OEA revoga suspensão de Cuba no grupo

Ação foi tomada sem 'condições', como queriam os EUA, mas estabelece mecanismos para reintegração da ilha

03 de junho de 2009 | 16h 14
AP, Efe e Reuters

A Organização dos Estados Americanos (OEA) anunciou nesta quarta-feira, 3, a revogação de uma medida de 1962 que suspendia Cuba no grupo, abrindo caminho para uma reintegração. "A Guerra Fria terminou neste dia", disse o presidente de Honduras, Manuel Zelaya, ao anunciar oficialmente a decisão. A medida foi tomada "sem condições", como queriam os EUA, disse o ministro de Relações Exteriores do Equador, Fander Falconi, mas estabelece mecanismos para o retorno de Cuba ao grupo - incluindo a concordância do país em cumprir as convenções da OEA sobre direitos humanos.

Retorno de Cuba foi apoiado por líderes da OEA - Reuters
Reuters
Retorno de Cuba foi apoiado por líderes da OEA

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Os delegados dos 34 países-membros do organismo ratificaram, unanimemente, a decisão adotada pelos chanceleres do grupo de trabalho especial sobre o retorno da ilha. A aprovação foi pedida pela ministra das Relações Exteriores de Honduras, Patricia Rodas, que preside a 39ª Assembleia Geral da OEA. "Este é um momento de alegria para toda a América Latina", afirmou Falconi.

A resolução que levantou o veto, porém, deixa claro que a "participação de Cuba na OEA será o resultado de um processo de diálogo iniciado por solicitação do governo de Cuba e de acordo com as práticas, os propósitos e os princípios da OEA". Desta forma, a decisão de retornar ou não à OEA dependerá de Havana, que terá que se ajustar aos valores democráticos e de direitos humanos que regem o organismo, entre outros instrumentos.

O documento traz também aspectos importantes em seu preâmbulo, ao destacar que a plena participação dos Estados-membros da OEA se guia "pelos propósitos e princípios estabelecidos" pelo organismo
interamericano na Carta da organização. Também por seus instrumentos fundamentais relacionados à
segurança, democracia, autodeterminação, não-intervenção, direitos humanos e desenvolvimento, acrescenta a resolução.

Este parágrafo é crucial, já que inclui as exigências de todos os países, especialmente dos Estados Unidos, por um lado, e da Venezuela, Nicarágua e Honduras, entre outros, de outro. Os EUA insistiram nos termos de "democracia" e "direitos humanos", enquanto os países da Alternativa Bolivariana para as
Américas (Alba), nas palavras "autodeterminação" e "não-intervenção."

Segundo a BBC Brasil, a reincorporação da ilha à OEA é mais simbólica do que prática. Tanto o líder cubano Fidel Castro, como seu irmão e atual presidente, Raúl Castro, anunciaram não estarem interessados em voltar à entidade, por considerarem-na um "instrumento" dos Estados Unidos para o controle regional. No mês passado, Raúl chegou a afirmar que "era mais fácil que uma águia nasça do ovo de uma serpente" que Cuba pretender regressar à OEA.

POSIÇÃO AMERICANA

Até a terça-feira, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, que participava da assembleia, dizia que era difícil chegar a um consenso para levantar o veto à presença de Cuba na OEA. Mas nesta quarta, Washington saudou o gesto. "A histórica medida tomada nesta quarta-feira elimina uma confusão do passado e permite que tenhamos o foco nas realidade de hoje", disse o porta-voz do Departamento de Estado do governo norte-americano, Robert Wood.

"Os EUA trabalharam de maneira incansável", acrescentou Wood, para garantir "que a volta de Cuba a participar da OEA seja feita de acordo com os princípios e objetivos da democracia e dos direitos humanos". Os EUA conseguiram a suspensão de Cuba da OEA em janeiro de 1962, apenas nove meses após o líder cubano Fidel Castro ter descrito o sistema de Cuba como socialista e após a desastrosa
invasão de exilados cubanos na Baía dos Porcos, ou Playa Giron. Na época, o texto da suspensão afirmava que "a adesão (de Cuba) ao Marxismo-Leninismo é incompatível como o sistema interamericano."

Nos últimos vinte anos, porém, com o final da Guerra Fria e os governos de centro-esquerda e esquerda se espalhando pelas Américas, o isolamento de Cuba foi derretido. Todos os países do Hemisfério, exceto os EUA, restabeleceram relações diplomáticas com Havana e o embargo econômico norte-americano à ilha é profundamente impopular na América Latina. A administração Obama espera que suas recentes aberturas ao governo cubano ajudem a superar o ressentimento contra Washington nas Américas.

APOIO BRASILEIRO

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, comemorou a decisão da OEA. "Fiquei muito contente com a aprovação da resolução porque  mostra que o bom senso continua vivo", disse Amorim, por intermédio de sua assessoria de imprensa. O ministro participou da reunião do grupo e está em viagem de volta ao Brasil. Segundo o Itamaraty, foi também criado um grupo de trabalho, por sugestão do Brasil, para agora tratar da reintegração de Cuba ao grupo.

(Com Sandra Manfrini, de O Estado de S. Paulo)

Texto ampliado às 19 horas.



Tópicos: Cuba, OEA