Após terremoto, desabrigados turcos temem a neve
Parados próximo a casas que se tornaram armadilhas letais depois do violento terremoto de domingo, os homens da aldeia turca de Guvencli olhavam para o céu carregado e previam mais mortes se não receberem abrigo antes da chegada do inverno e de suas nevascas.
"Em quinze dias, metade das pessoas daqui estarão mortas, congeladas", disse Selahattin Karadeniz, 47 anos, cuja casa de barro, madeira e tijolos resistiu melhor que a maioria dos cerca de 200 imóveis de Guvencli.
A neve geralmente começa em novembro, e o chão pode continuar branco até abril entre os morros no extremo leste do lago Van, o maior da Turquia, perto da fronteira com o Irã.
"Esta é a terra do inverno", disse o morador Hilmi Gulgeldi. "Ficar ao relento depois desta época é impossível, cai a -25, -40."
Seja na escala Celsius ou na Fahrneheit, isso significa a morte.
Três dias depois do terremoto de magnitude 7,2, o pior na Turquia em mais de uma década, o número confirmado de mortos chegou a 471, mas as operações de busca prosseguem.
O governador da região disse que 600 mil pessoas foram afetadas, e nas cidades e aldeias da província muitos moradores temem que suas casas não tenham condições de resistir aos abalos secundários que continuam ocorrendo.
Os esforços iniciais se concentram na cidade de Van (1 milhão de habitantes) e Ercis (100 mil), e os vilarejos rurais tiveram de esperar mais pela ajuda. No acesso a Guvencli, era possível ver casas em ruínas de ambos os lados da sinuosa estrada de lama -- algumas completamente destruídas, outras com paredes faltando.
O cenário era similar em outras aldeias da região - Alakoy, Dagonu, Gedikli.
Numa delas, uma grande tenda era usada para que os homens se reunissem, tomassem chá, discutissem seus problemas e oferecem condolências a parentes e vizinhos das vítimas.
Muitos deles se queixavam da escassez na ajuda. "Ninguém pode dizer que não há ajuda. Há, mas ela está sendo distribuída de forma injusta", queixou-se Karadeniz. "Não temos água nem eletricidade. A ajuda chega e aí vai parar na casa de alguém, e ficamos sem nada."
Nesta comunidade pastoril, onde a riqueza é contada pelo tamanho dos rebanhos, muitos estão desesperados com a perspectiva de ver animais morrendo de frio devido à destruição dos estábulos.
"Matamos dois perus hoje e comemos", disse Orhan Ogunc, de 37 anos. "Os perus não são mesmo muito resistentes ao frio."
Ele estava mais preocupado com suas vacas e cabras deixadas ao relento. "Nenhum animal pode suportar este clima por mais de duas semanas. Os estábulos estão inutilizáveis, arruinados."
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