Argentina leva disputa sobre Malvinas à ONU; entenda
Saiba o que está por trás do anúncio de Cristina Kirchner, que prometeu protestar contra 'militarização' britânica no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Em uma nova mostra da crescente tensão entre Argentina e Grã-Bretanha, a presidente argentina Cristina Kirchner repudiou o envio de um navio britânico às ilhas Malvinas (chamadas pelos britânicos de Falklands) e afirmou que seu país denunciará Londres perante a ONU pela "militarização" do Atlântico Sul.
Mas o que isso significa na prática?
A BBC explica os possíveis impactos da retomada da tensão, às vésperas do aniversário de 30 anos da guerra disputada por Argentina e Grã-Bretanha pela soberania do arquipélago.
Que medidas serão tomadas pela Argentina?
Cristina Kirchner prometeu fazer uma queixa perante o Conselho de Segurança (CS) da ONU denunciando a Grã-Bretanha por "militarizar" o Atlântico Sul.
Para o espanhol Carlos Espósito, professor de Direito Internacional Público da Universidade Autônoma de Madri, a queixa argentina teria conteúdo fundamentalmente político, e não jurídico.
Espósito diz que o CS pode investigar as denúncias - as quais podem ser apresentadas por qualquer Estado-membro da ONU - e estas podem derivar em resoluções de cumprimento obrigatório.
Mas isso só acontece se o conteúdo da denúncia tiver apoio político dos membros do Conselho - em especial os membros permanentes, EUA, França, Rússia, China, Grã-Bretanha - e se o caso for visto como uma ameaça à paz ou um ato de agressão (conforme previsto no artigo 39 da Carta das Nações Unidas).
Qual a possibilidade de o protesto argentino ser bem-sucedido na ONU?
É pequena, se é que essa possibilidade existe. A Argentina sabe que, como membro permanente do CS, a Grã-Bretanha tem direito a vetar qualquer resolução contra si mesma.
No entanto, para o argentino Marcelo Kohen, professor de Direito Internacional do Instituto de Altos Estudos Internacionais e de Desenvolvimento, em Genebra, um veto por parte da Grã-Bretanha também teria custos políticos.
Kohen cita o recente veto da China e da Rússia à resolução - que tinha respaldo do Ocidente e dos países árabes - condenando a repressão na Síria. Ambos os países foram criticados pelo veto.
Qual foi a resposta do governo britânico?
Londres rejeita as acusações, e o premiê britânico, David Cameron, chegou a acusar Buenos Aires de ter uma atitude "colonialista" perante ao arquipélago.
O governo de Cameron também rechaçou as acusações de militarização do Atlântico, mas disse que tem um compromisso com a defesa das ilhas.
Em comunicado, a Chancelaria britânica disse que "os habitantes das Falkland são britânicos por escolha própria. São livres para determinar seu próprio futuro e não haverá nenhuma negociação com a Argentina sobre a soberania, a não ser que os moradores das ilhas queiram isso".
Qual seria o próximo passo da Argentina caso não avance sua queixa no CS?
Antecipando a rejeição de sua queixa no Conselho de Segurança, Cristina Kirchner disse que também levará seu protesto para ser analisado perante a Assembleia Geral da ONU.
Kohen explica que na Assembleia Geral votam todos os países-membros da ONU, e não existe direito a veto. As sessões da assembleia começam em setembro.
A assembleia já tratou da questão em 1965, quando adotou a resolução 2065 (seguida por outras), reconhecendo a existência de uma disputa de soberania entre Argentina e Grã-Bretanha e instando as duas partes a buscar uma solução negociada e pacífica.
O anúncio de Cristina Kirchner foi mais forte do que o esperado?
O correspondente da BBC Fregal Keane destaca que, antes do discurso da presidente, especulou-se que ela poderia anunciar um bloqueio aéreo para voos entre Chile e Malvinas que passassem pelo espaço aéreo argentino - algo que traria muitas dificuldades práticas para os moradores das ilhas.
Keane ressalta que, ao não tomar essa medida, o governo argentino indica que não está buscando um efeito político imediato, e sim que está se concentrando em uma campanha diplomática de longo prazo. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.
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