Rodrigo Abd/AP
Rodrigo Abd/AP

Brasil critica ameaças a Assad e rejeita ideia de armar rebeldes

Ministra dos Direitos Humanos reclama na ONU da forma Ocidente pressiona regime de Damasco

Jamil Chade, correspondente

27 Fevereiro 2012 | 22h00

GENEBRA - O Brasil criticou nesta segunda-feira, 28, no Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) a forma como potências e países árabes têm pressionado o ditador Bashar Assad. Em discurso em Genebra, a ministra Maria do Rosário (Direitos Humanos) condenou a ideia de armar a oposição síria, bem como iniciativas diplomáticas fora do âmbito da entidade - alfinetada indireta no grupo "Amigos da Síria", formado por americanos, europeus e árabes.

 

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A ministra afirmou que o governo Dilma Rousseff "não aceita" a entrega de armas a rebeldes e pediu que a "política ocupe espaço" na crise, sem indicar como, na prática, isso seria feito.

 

Sob pressão desse grupo, o CDH deve aprovar na terça uma resolução que exige a abertura de corredores humanitários para socorrer as vítimas dos 11 meses de violência na Síria. O texto ainda acusa o regime Assad de "violações sistemáticas e generalizadas" e exige o fim da violência contra a população civil.

 

A mobilização na sede da ONU em Genebra ocorreu enquanto, em Bruxelas, autoridades europeias decidiam impor novas sanções unilaterais contra a ditadura síria - outra medida criticada pelo Brasil. O cerco prevê o congelamento de ativos do Banco Central da Síria, na prática inviabilizando transações comerciais com Damasco, segundo explicou o chanceler francês, Alain Juppé. Sete ministros sírios tiveram bens congelados na Europa e empresas da Síria ficaram impedidas de transportar cargas ao continente.

 

Juppé afirmou que o bloco europeu solicitará ainda que Assad seja julgado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes contra a humanidade. Pelo menos dez rodadas de sanções já foram adotadas, com mais de cem pessoas atingidas, entre elas o próprio Assad, e cerca de 40 empresas.

 

Do lado militar, o governo do Catar somou-se aos sauditas e declarou ontem que é favorável a um plano para armar a oposição. "Como fracassamos no Conselho de Segurança da ONU, temos de fazer o necessário para ajuda-los a se defender, incluindo dando armas", declarou o primeiro-ministro Hamad bin Jassim al-Thani.

 

Mais mortos. Ao lado do Brasil, os representantes de Irã, China e Rússia também usaram a plenária do Conselho de Genebra para atacar a pressão sobre Damasco.

 

De acordo com o rascunho da resolução que será votada, a ONU acusará as autoridades sírias pela deterioração da situação. Na segunda, pelo menos 124 pessoas morreram nos confrontos, 64 delas em Homs, segundo fontes da oposição.

 

O governo brasileiro registrou sua solidariedade às vítimas, mas subiu o tom contra a estratégia do Ocidente e de alguns países árabes para lidar com a crise. Comentando as declarações da Arábia Saudita de que o envio de armas à oposição síria seria uma "excelente ideia", a ministra dos Direitos Humanos afirmou que o governo brasileiro não compartilha dessa ideia. "Não é uma excelente ideia. A excelente ideia é a política ocupar espaço", disse. "As ações bélicas devem ser revistas. Elas têm significados nefastos para civis e não contribuem para a afirmação democrática", declarou.

 

"Queremos que decisões de caráter multilateral sejam tomados em espaços multilaterais", apontou, em referência à reunião em Túnis do grupo "Amigos da Síria", na semana passada.

 

A Rússia também rejeitou a pressão de potências ocidentais e de alguns países árabes. Em um artigo, o primeiro-ministro Vladimir Putin ainda acusou o Ocidente de estar apoiando a Primavera Árabe como uma forma de redesenhar o mapa da região segundo seus interesses.

 

O premiê russo, que deve consagrar-se presidente no domingo, alertou ainda que, no lugar de democracia, as revoltas estão conduzindo a extremismos religiosos. 

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