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Cidade austríaca não entende como ninguém percebeu abusos

28 de abril de 2008 | 16h 30
SYLVIA WESTALL - REUTERS

Quando, de sua loja, olha na

direção da casa do outro lado da rua que chamou a atenção do

mundo todo para a pequena cidade de Amstetten, na Áustria,

Guenter Haller sente um arrepio.

"Esta é a cidade mais tranquila em que já vivi. Fiquei

completamente chocado ao saber que um homem desse tipo morava

do outro lado da rua e que fez essas coisas horríveis com a

filha dele", afirmou o vendedor, 42, na segunda-feira.

"Não sei como os outros inquilinos não perceberam isso."

Debaixo do conjunto de casas cinzas para o qual Haller olha

fica o porão onde um homem de 73 anos de idade manteve, durante

24 anos, sua filha presa junto com alguns dos filhos que teve

com ela.

Esse cenário de horror veio à tona apenas quando um dos

três filhos mantidos em cativeiro, uma jovem de 19 anos, ficou

gravemente doente e precisou ser levada a um hospital.

A próspera e agitada cidade de Amstetten, localizada em uma

região de montanhas distante 130 quilômetros de Viena, está em

choque.

Josef Fritzl confessou ter, em 1984, atraído sua filha

Elisabeth, 42, para o porão do bloco de casas onde a drogou,

algemou e aprisionou.

A construção fica em uma das ruas mais movimentadas da

cidade, na qual encontram-se cafés, uma floricultura e lojas de

decoração.

A entrada do porão sem janelas, dentro do qual, segundo a

polícia, há também uma sala com paredes acolchoadas, ficava na

parte traseira do conjunto, em uma rua com várias casas

pequenas.

"Olhe esta região. Esta é uma área residencial", afirmou

Sabine Ilk, 32, apontando para a fileira de casas brancas e

beges com jardinzinhos bem cuidados na parte dianteira.

"Eu cresci em Amstetten. Esta aqui é uma comunidade unida e

é inacreditável que ninguém nunca tenha notado o que esteve

acontecendo durante tanto tempo."

Peritos usando uniformes e luvas brancas carregavam caixas

com provas para fora da casa enquanto os investigadores

vasculhavam os cômodos do porão, cuja entrada Fritzl escondeu

atrás de prateleiras.

Três dos filhos de Elisabeth e seu pai, com idades de 5, 18

e 19 anos, ficaram desde o nascimento trancados dentro do

emaranhado de quartos com uma altura, em alguns pontos, de

apenas 1,70 metro. Aparentemente, os três nunca viram a luz do

Sol e nem receberam qualquer tipo de educação.

Uma outra criança morreu pouco depois de ter nascido e

Fritzl queimou o corpo dela em uma caldeira do sistema de

aquecimento da casa. O engenheiro elétrico e sua mulher,

Rosemarie, criaram os outros três filhos da relação incestuosa,

duas meninas e um menino.

Um jornal austríaco criticou todos os cerca de 22 mil

moradores de Amstetten.

"A comunidade de Amstetten deveria afogar-se em vergonha.

Os vizinhos faziam-se de cegos", afirmou o diário Oesterreich

em um editorial.

Em um caso semelhante, ocorrido também na Áustria, Natascha

Kampusch foi mantida oito anos trancada em uma cela sem janelas

por um homem que a sequestrou. Kampusch conseguiu escapar em

2006 -- e alguns austríacos preocupam-se com o que o mundo

pensará do país após esses dois episódios.

"O país todo precisa perguntar-se sobre o que está real e

fundamentalmente acontecendo de errado", escreveu o jornal Der

Standard.

"Claramente, este caso é igual ao de Kampusch, mas ao mesmo

tempo muito pior", afirmou o aposentado Joachim Wasser, 75,

morador de Amstetten.

"Isso não significa que haja algo de errado com a Áustria.

Esse tipo de coisa poderia acontecer em qualquer lugar do

mundo. Mas não pode repetir-se nunca mais."



Tópicos: AUSTRIA, FRITZL