Cidade austríaca não entende como ninguém percebeu abusos
Quando, de sua loja, olha na
direção da casa do outro lado da rua que chamou a atenção do
mundo todo para a pequena cidade de Amstetten, na Áustria,
Guenter Haller sente um arrepio.
"Esta é a cidade mais tranquila em que já vivi. Fiquei
completamente chocado ao saber que um homem desse tipo morava
do outro lado da rua e que fez essas coisas horríveis com a
filha dele", afirmou o vendedor, 42, na segunda-feira.
"Não sei como os outros inquilinos não perceberam isso."
Debaixo do conjunto de casas cinzas para o qual Haller olha
fica o porão onde um homem de 73 anos de idade manteve, durante
24 anos, sua filha presa junto com alguns dos filhos que teve
com ela.
Esse cenário de horror veio à tona apenas quando um dos
três filhos mantidos em cativeiro, uma jovem de 19 anos, ficou
gravemente doente e precisou ser levada a um hospital.
A próspera e agitada cidade de Amstetten, localizada em uma
região de montanhas distante 130 quilômetros de Viena, está em
choque.
Josef Fritzl confessou ter, em 1984, atraído sua filha
Elisabeth, 42, para o porão do bloco de casas onde a drogou,
algemou e aprisionou.
A construção fica em uma das ruas mais movimentadas da
cidade, na qual encontram-se cafés, uma floricultura e lojas de
decoração.
A entrada do porão sem janelas, dentro do qual, segundo a
polícia, há também uma sala com paredes acolchoadas, ficava na
parte traseira do conjunto, em uma rua com várias casas
pequenas.
"Olhe esta região. Esta é uma área residencial", afirmou
Sabine Ilk, 32, apontando para a fileira de casas brancas e
beges com jardinzinhos bem cuidados na parte dianteira.
"Eu cresci em Amstetten. Esta aqui é uma comunidade unida e
é inacreditável que ninguém nunca tenha notado o que esteve
acontecendo durante tanto tempo."
Peritos usando uniformes e luvas brancas carregavam caixas
com provas para fora da casa enquanto os investigadores
vasculhavam os cômodos do porão, cuja entrada Fritzl escondeu
atrás de prateleiras.
Três dos filhos de Elisabeth e seu pai, com idades de 5, 18
e 19 anos, ficaram desde o nascimento trancados dentro do
emaranhado de quartos com uma altura, em alguns pontos, de
apenas 1,70 metro. Aparentemente, os três nunca viram a luz do
Sol e nem receberam qualquer tipo de educação.
Uma outra criança morreu pouco depois de ter nascido e
Fritzl queimou o corpo dela em uma caldeira do sistema de
aquecimento da casa. O engenheiro elétrico e sua mulher,
Rosemarie, criaram os outros três filhos da relação incestuosa,
duas meninas e um menino.
Um jornal austríaco criticou todos os cerca de 22 mil
moradores de Amstetten.
"A comunidade de Amstetten deveria afogar-se em vergonha.
Os vizinhos faziam-se de cegos", afirmou o diário Oesterreich
em um editorial.
Em um caso semelhante, ocorrido também na Áustria, Natascha
Kampusch foi mantida oito anos trancada em uma cela sem janelas
por um homem que a sequestrou. Kampusch conseguiu escapar em
2006 -- e alguns austríacos preocupam-se com o que o mundo
pensará do país após esses dois episódios.
"O país todo precisa perguntar-se sobre o que está real e
fundamentalmente acontecendo de errado", escreveu o jornal Der
Standard.
"Claramente, este caso é igual ao de Kampusch, mas ao mesmo
tempo muito pior", afirmou o aposentado Joachim Wasser, 75,
morador de Amstetten.
"Isso não significa que haja algo de errado com a Áustria.
Esse tipo de coisa poderia acontecer em qualquer lugar do
mundo. Mas não pode repetir-se nunca mais."
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