Crítica a eleitorado portenho antecipa tensão da 'era Cristina'
Ministro kirchnerista causa reação furiosa da oposição ao dizer que Buenos Aires vota como 'uma ilha'
Um dos focos de tensão que prometem conturbar o governo de Cristina Kirchner na Argentina ganhou força nesta terça-feira, 30, com as críticas de um alto funcionário da Casa Rosada ao eleitorado que não escolheu a governista como sua represenante nas eleições presidenciais de domingo. A disputa acontece menos de dois dias após a confirmação da vitória da primeira-dama e a pouco mais de um mês antes da posse, no dia 10 de dezembro. Veja Também Baterista do The Police ironiza Cristina, Bachelet e Hilary Kirchner diz que resultado foi uma 'surra' eleitoral Cristina defende o Mercosul e deseja sorte para Hillary Eduardo Viola: 'Cristina deve se afastar de Chávez' Cristina Kirchner visitará Brasil antes da posse Cristina terá maioria legislativa Derrotada, Carrió se proclama líder da oposição Perfil de Cristina A polêmica começou na segunda-feira, 29, depois que o chefe-de-gabinete do governo, Alberto Fernández, chamou o eleitorado de Buenos Aires de "soberbo" por votar majoritariamente na candidata da oposição, Elisa Carrió. Nesta terça, ao explicar sua declaração, ele voltou a dizer que a capital não integra um "projeto integrado de país". "Outro dia me fez rir esta idéia de que os maiores soberbos desse país estejam reivindicando a Cristina sua condição de soberba", disse Fernández à Rádio América. Em seguida, ele recomendou "que a cidade se integre, seja parte do país e deixe de votar como uma ilha". Apesar da vitória histórica e arrasadora (Cristina obteve aproximadamente 45% dos votos do eleitorado argentino, um resultado que não acontecia em anos), a presidente eleita foi derrotada por Carrió em Buenos Aires e outros centros urbanos, num claro sinal de que seu governo dificilmente contará com a simpatia das classes alta e média do país. Mais do que um fato isolado, o resultado em Buenos Aires é a confirmação de uma tendência. Há quatro meses, o ministro da Educação de Kirchner, Daniel Filmus, perdeu as eleições para o governo da capital para o líder oposicionista Mauricio Macri. As declarações de Fernández geraram forte reação na oposição. Já na segunda-feira, a chefe de campanha de Carrió, Patricia Bullrich, classificou o chefe-de-gabinete de Kirchner de "intolerante". "As declarações de Fernández demonstram cabalmente seu espírito intolerante e irreflexivo. Não podemos permitir que faltem com o respeito aos portenhos, qualificando-os de soberbos. A sociedade não precisa de funcionários que se dediquem a gozar os que pensam diferente", disse Patricia em declarações ao Clarín. Segundo ela, o resultado na capital, que se repetiu em "outras localidades", coloca o partido de Carrió, a Coalizão Cívica à frente da oposição argentina. Mais barulho O acirramento das tensões entre governo e oposicionistas continuou nesta terça-feira, com a "tréplica" de Fernández, que rejeitou as interpretações de suas declarações de segunda como uma afronta à população portenha. Ele destacou ser ele mesmo um cidadão de Buenos Aires, e disse "amar a cidade". Ainda assim, ele voltou a insistir que os "portenhos sistematicamente" votam "diferente do resto do país". "O que expressei foi um pensamento pessoal meu. Me encantaria ver alguma vez a cidade de Buenos Aires se juntar a um projeto integrado de país", explicou o chefe-de-gabinete de Kirchner. Carrió também se pronunciou pessoalmente nesta terça-feira sobre as declarações de Fernández. Segundo ela, "as grandes classes médias argentinas" que a apoiaram não tiveram um voto soberbo, mas sim pronunciaram-se contra um "estilo (de governo) que implica em corrupção, nepotismo, falta de justiça social e de desenvolvimento econômico". Ela destacou ainda, em entrevista à rádio 'La Red', que a mensagem das urnas de Buenos Aires é de que as classes média e alta argentinas não querem uma "república de bananas". Para ela, seus eleitores "não votaram contra o crescimento", mas sim porque "simplesmente disseram aos poderosos: 'queremos ser como nos ensinaram nossos avós'".
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