Economia do Irã é desafio para a reeleição de Ahmadinejad
Presidente iraniano pode ser o primeiro que não garante o segundo mandato desde a Revolução de 1979
Se os iranianos negarem a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, pode ser mais um veredicto por sua performance econômica do que por sua retórica contra os Estados Unidos e Israel, a defesa das políticas nucleares iranianas ou seu persistente questionamento da existência do Holocausto.
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Mahmoud Ahmadinejad foi eleito presidente do Irã em junho de 2005 com a promessa de divisão mais justa dos recursos do petróleo e retorno à valores revolucionários islâmicos. Filho de um ferreiro, era uma figura pouco conhecida quando foi designado para ser prefeito de Teerã, em 2003. Dois anos depois, já como candidato à Presidência, contou com o apoio dos círculos militares e religiosos - que estavam frustrados com as políticas de seu antecessor, Mohammad Khatami, e conquistou os votos do meio rural, para onde levou eletricidade e água, e entre os mais pobres, dos quais 5,5 milhões receberam auxílio em dinheiro do governo. A população via no candidato esperança de mudança econômica e nas promessas de colocar a renda do petróleo na mesa de cada família da nação de 70 milhões de pessoas.
Ahmadinejad distribuiu empréstimos, dinheiro e ajuda de acordo com as necessidades de cada comunidade durante seus giros provinciais, mas críticos afirmam que sua política de gastos alimentou a inflação e não reduziu o desemprego. Desde que assumiu o poder, os preços de alimentos, combustível e outros produtos básicos subiram drasticamente, atingindo em cheio mais de 15 milhões de iranianos que vivem com menos de US$ 600 por mês.
Filho de ferreiro, Ahmadinejad mudou-se com a família da zona rural para Teerã ainda na infância. Ele tem doutorado em Engenharia de Transportes da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade de Teerã, onde também foi professor. Ex-soldado da Guarda Revolucionária, foi o primeiro presidente civil - sem ligações religiosas -, em mais de 25 anos e pode ser o primeiro que não conseguirá revalidar seu mandato. Ahmadinejad logo se tornou conhecido internacionalmente como a face do confrontamento do Irã em defesa do programa nuclear do país e das hostilidades contra Israel. Ele chocou o mundo ao negar a existência do Holocausto e repetir o velho slogan da Revolução de 1979, afirmando que "Israel deve ser varrido do mapa".
Depois de sua eleição, o Irã rompeu com a Agência Nuclear da ONU e retomou as atividades de enriquecimento de urânio - processo que pode ser usado para fazer combustível nuclear para geração de energia ou para bombas atômicas, e foi penalizado com três sanções econômicas. O país afirma que seu programa tem fins pacíficos e que pretende produzir combustível para suas usinas de energia nuclear.
Enquanto as relações exteriores do Irã permanecem tensas por conta das questões nucleares, Ahmadinejad pode enfrentar um desafio muito maior em casa. Ainda que o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo religioso iraniano, repetidamente apoie o presidente em discursos públicos, seu suporte pode ser mais fraco do que parece. Mais importante, os desafios econômicos, pressionados pela inflação desenfreada e minados pela queda dos preços do petróleo, enfraqueceram o apoio popular ao presidente, que tenta seu segundo mandato. A queda nos preços do petróleo, a inflação, os gastos governamentais e o desemprego estão entre as principais preocupações dos iranianos.
Há entre os conservadores descontentamento com a retórica incendiária do presidente, que tem atraído a hostilidade do Ocidente por causa de seu tom desafiante a respeito do programa nuclear iraniano e de sua insistência em negar o Holocausto. Em qualquer caso, uma candidatura à presidência do Irã não tem como prosperar sem a aprovação de Khamenei.
Um de seus últimos atos polêmicos aconteceu em abril deste ano, quando, durante uma conferência da Organização das Nações Unidas, ele afirmou que Israel era um Estado fundado "sob princípios racistas". Na ocasião, delegados de pelo menos 30 países se retiraram da conferência em protesto.
Ahmadinejad, no entanto, foi recebido como herói no Irã.
Ahmadinejad apostou em uma campanha eleitoral agressiva, não só aumentando a retórica contra as "potências arrogantes", mas também desqualificando rivais e acusando seus predecessores de corrupção e complô para derrubar seu governo. Em uma ação incomum, sem precedentes nos 30 anos de Revolução Islâmica, Ahmadinejad ainda acusou seus antecessores, Ali Akbar Hashemi Rafsanjani e Mohamad Khatami, de corrupção e complô para derrubar seu governo. Foi especialmente direto com a família de Rafsanjani, um dos clãs mais ricos do país, aos quais acusou de se apoderar e manipular a economia nacional. As afirmações desataram uma enorme polêmica e terminaram por dividir o país.
O presidente mantém ainda o discurso oficial de que, apesar de um bom começo, a oferta de reconciliação do presidente americano, Barack Obama, deve ultrapassar as palavras e ter efeitos práticos. Durante a campanha, Ahmadinejad propôs ao americano um debate frente-a-frente na ONU, se reeleito, para discutir "as raízes dos conflitos mundiais".
(Com Reuters e The New York Times)
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