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França condena discurso iraniano, mas defende reunião da ONU

Apesar de retórica 'antissemita' de Ahmadinejad, chanceler diz que conferência sobre racismo teve avanços

21 de abril de 2009 | 8h 45
Agências internacionais

O ministro de Assuntos Exteriores francês, Bernard Kouchner, defendeu nesta terça-feira, 21, a Conferência Mundial sobre o Racismo da ONU pelos avanços com relação à anterior, em 2001, e reafirmou que seu país não deixará o encontro apesar do discurso "antissemita" do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad. Em entrevista à rádio Europe 1, Kouchner disse que defende a permanência da França na conferência por causa da adoção de "um texto no qual figura tudo o que os países ocidentais querem, embora não seja perfeito."

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Segundo o ministro francês, "não é um sucesso absoluto, mas o começo de um êxito" em virtude dos avanços nessa declaração final, que menciona "o antissemitismo, a discriminação de pessoas, a liberdade de expressão, o genocídio, a memória do Holocausto, os direitos das mulheres", lembrou.

Sobre o discurso de segunda-feira de Ahmadinejad, Kouchner o considerou "inadmissível" por causa de seu tom "antissemita", mas disse também que o presidente iraniano não podia ser impedido de falar já que é um dos membros da ONU.

O chanceler francês se distanciou da posição americana de boicotar a conferência, mas de manter sua intenção de diálogo com Teerã, e opinou: "É mais que um paradoxo, pode ser um erro". O embaixador da França na conferência foi um dos que se retirou quando Ahmadinejad fez seu polêmico discurso, no qual acusou Israel de ter um "governo racista."

PROTESTO CHECO

A República Checa, que ocupa a Presidência rotativa da União Europeia (UE), abandonou a reunião, segundo confirmou nesta terça o embaixador checo no órgão em Genebra, Tomás Husák. Um total de 22 dos 27 países da UE - todos menos Holanda, Itália, Polônia, Alemanha e a República Checa - permanecerão na conferência e estão dispostos a assinar a declaração oficial final.

As nações europeias ausentes, junto aos EUA, Israel, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, consideraram que o encontro se transformaria em um fórum antissemita. As polêmicas palavras pronunciadas na abertura do evento por Ahmadinejad fez com que diplomatas europeus deixassem a reunião. Segundo o embaixador checo, foi por este motivo que seu país decidiu abandonar o evento.

"O discurso de ontem foi a gota d'água", disse Husák a jornalistas. A UE debateu até o último momento sua participação na Conferência e, em reunião em Bruxelas no domingo, foi decidido sem consenso que os países-membros do bloco compareceriam, mas não aceitariam "nenhuma provocação."

A conferência tenta aprovar entre esta terça e quarta seu documento oficial, como anunciou na noite de segunda a alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillay, e como querem algumas delegações, como a latino-americana, que temem a reabertura da discussão sobre um documento alcançado por consenso após muitas negociações.

O documento não faz nenhuma menção a Israel e nem aos territórios ocupados, mas faz referência explícita ao Holocausto e à necessidade de não esquecê-lo. Além disso, o texto não inclui o conceito de "difamação de religiões", apoiado por alguns países árabes e que foi excluído porque as nações ocidentais temiam que pudessem afetar a liberdade de expressão.

CRÍTICAS

O presidente americano, Barack Obama, por meio de seu porta-voz, afirmou que "discordava veementemente" do presidente iraniano. O porta-voz do Departamento de Estado, Robert Wood, disse que "esse tipo de retórica é inútil, contraproducente e só serve para alimentar o ódio racial". Mas ele reiterou que os EUA querem manter um diálogo direto com o Irã.

O secretário-geral da ONU denunciou energicamente a atitude de Ahmadinejad, dizendo que ele usou seu discurso para "acusar, dividir e até mesmo provocar". "Isso não pode mais ocorrer no futuro. O que aconteceu é deplorável", disse Ban Ki-Moon. "Peço ao Irã que respeite os demais países."

"Ele deveria ser preso por incitar o genocídio", declarou o prêmio Nobel da Paz de 1986, Elie Wiesel.
Dividida e esvaziada, a cúpula termina na sexta-feira. Delegados de 103 países, dos 192 que compõem a ONU, e militantes de ONGs reuniram-se com o propósito de criar um plano internacional para melhorar a luta contra o racismo, a discriminação racial, a xenofobia e as diversas formas de intolerância.

(Com Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo)



Tópicos: ONU, Racismo