Gaddafi foi pego como 'rato' no esgoto, humilhado e baleado
Muammar Gaddafi fez sua arremetida final por liberdade pouco antes das orações da alvorada. O líder deposto da Líbia, algumas dezenas de guarda-costas leais a ele e o chefe do seu Exército que agora não existe mais, Abu Bakr Younis Jabr, furaram o cerco de dois meses contra sua cidade natal, Sirte. Em um comboio formado por cerca de 60 veículos, saíram em velocidade para o oeste. Mas não foram muito longe.
Aeronaves francesas atingiram veículos militares pertencentes à forças de Gaddafi perto de Sirte por volta de 8h30 (4h30 no horário de Brasília), afirmaram autoridades.
Fotos e vídeos do drama que se seguiu em pouco tempo correram o mundo: Muammar Gaddafi ensanguentado e abalado é arrastado por combatentes furiosos antes do que pode ter sido um final inglório. O corte nas imagens deixou em aberto a questão sobre como exatamente o ditador morreu.
Entrevistas conduzidas separadamente com aqueles que dizem ter estado presentes dão um quadro das horas finais de Gaddafi. Junto com o vídeo, elas dão pistas sobre o momento final e o falecimento.
Gaddafi ainda estava vivo quando foi capturado perto de Sirte.
No vídeo, filmado por alguém na multidão, ele aparece confuso e ferido sendo puxado do capô de uma caminhonete e mantido sentado.
Olhando atordoado com sangue escorrendo pelo rosto, Gaddafi pôde ser ouvido dizendo "Deus proíba isso" várias vezes enquanto recebia bofetadas da multidão em sua cabeça.
"Isso é por Misrata seu cachorro", disse um homem batendo nele. A unidade que capturou Gaddafi era de Misrata, uma cidade que sofreu uma destruição generalizada em um cerco prolongado após os seus cidadãos se rebelarem contra o regime de 42 anos.
"Você consegue distinguir o certo do errado?", disse Gaddafi.
"Cale a boca seu cachorro", alguém responde, com mais golpes.
Mahmoud Hamada, um combatente claramente reconhecido nos vídeos por estar presente naquele momento, disse que Gaddafi já mal conseguia andar quando foi capturado.
Hamada afirmou que ele e outros transportaram o líder deposto para a frente do caminhão, em meio à multidão, em direção a uma ambulância que estava a cerca de 500 metros de distância.
Um vídeo mostra Gaddafi sendo puxado do capô de uma caminhonete e arrastado em direção a um carro e depois puxado do chão pelo cabelo. "Mantenha-o vivo, mantenha-o vivo!", alguém grita.
Mas outro homem da multidão solta um grito histérico. Gaddafi sai do campo de visão e são ouvidos tiros. Hamada disse não ter visto Gaddafi sendo arrastado para o chão e afirmou que o líder deposto estava mal, mas vivo, quando foi colocado na ambulância, que o levou embora.
"ELES BATERAM NELE"
"Eles o capturaram vivo e, quando estava sendo levado, eles bateram nele e depois o mataram", disse uma fonte do Conselho Nacional de Transição (CNT) à Reuters. "Ele pode ter resistido."
No que parece contradizer os eventos do vídeo, o CNT da Líbia disse que Gaddafi foi baleado na cabeça em um tiroteio entre as tropas do governo e seus simpatizantes depois da captura. Ele morreu em decorrência dos ferimentos minutos antes de chegar ao hospital, afirmou o primeiro-ministro, mas nenhuma ordem foi dada para matá-lo.
Uma testemunha da Reuters que viu o corpo de Gaddafi em Misrata nesta sexta-feira disse que ele tinha um furo de bala em um lado da cabeça, assim como um grande ferimento em um lado e marcas de arranhão. Mas ainda não está claro quem disparou o tiro e quando.
Outro repórter da Reuters ficou sob fogo de um atirador de Gaddafi no local da captura de seu líder que resistia cerca de duas horas depois de o antigo homem forte ter sido capturado. Assim, é possível que soldados tenham sido baleados enquanto ele era levado.
Gaddafi chamava os rebeldes que se levantaram contra o seu governo de 42 anos de "ratos", mas no final ele foi capturado em uma galeria cheia de sujeira e lixo.
"Ele nos chamava de ratos, mas veja onde nós o encontramos", disse o combatente Ahmed Al Sahati, de 27 anos, ao lado das duas galerias malcheirosas sob uma rodovia perto de Sirte.
ENCURRALADO
Três quilômetros a oeste de Sirte, havia três grupos de carros e caminhonetes equipadas com metralhadoras queimados e batidos -- um grupo de 11 veículos perto de uma subestação de eletricidade, três carros em um campo e outras sete caminhonetes em outro terreno.
Claramente eles foram atingidos por uma força bem maior do que o Exército formado pelos rebeldes durante os oito meses de revolta para derrubar o temido líder.
Dentro de alguns veículos, ainda nos assentos, estavam os esqueletos remanescentes dos motoristas e passageiros mortos na hora pelo ataque. Outros corpos jaziam mutilados na grama.
No total, havia 95 corpos.
Menos da metade foi queimada viva nos veículos. Outros pareciam ter sido mortos, alguns cortados em dois, por armas de grosso calibre de uma aeronave ou de uma arma terrestre. Outros pareciam ter sido mortos por estilhaços, possivelmente dos foguetes e das munições das caminhonetes.
O combatente do governo Ahmed al-Masalati, de Misrata, disse que estava lá. Ele afirmou que o comboio de Gaddafi escapou às 6h30 e ficou sob fogo das forças do governo.
"Eles foram encurralados nessas posições", afirmou ele, apontando para o campo. "Às 8h15, um caça da Otan apareceu, um Mirage. Ele atirou contra o grupo de 11 carros, depois passou de novo e atirou contra o outro grupo ao norte e contra os que estavam nos sete carros."
Esse relato foi confirmado por um prisioneiro de Gaddafi nesta sexta-feira, Jibril Abu Shnaf, capturado não longe do comboio.
"Eu estava cozinhando para os outros caras, quando de repente eles vieram e disseram 'venha, vamos partir'. Entrei em um carro civil e fiquei no final do comboio. Tentamos escapar pela estrada costeira. Mas ficamos sob ataque pesado, então tentamos outro caminho", disse ele à Reuters, sob custódia na cidade de Sirte.
(Reportagem adicional de Rania El Gamal, em Misrata; e de Samia Nakhoul, em Amã)
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