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Governo boliviano diz que autonomia é inaplicável

05 de maio de 2008 | 9h 52
REUTERS

O governo boliviano disse na

segunda-feira que o estatuto de autonomia aprovado na

segunda-feira no Departamento de Santa Cruz é inaplicável, já

que a elevada abstenção no referendo indica que não há consenso

a esse respeito.

Santa Cruz, a região mais rica do país, aprovou no domingo

o estatuto que confere às autoridades locais mais controle

sobre educação, segurança, justiça e economia, numa tentativa

de evitar a "refundação" da Bolívia -- reformas esquerdistas

promovidas pelo governo e que podem se acelerar com a entrada

em vigor de uma nova Constituição.

Mas o ministro de Governo (Casa Civil), Gustavo Rada, disse

que a abstenção no referendo superou os 40 por cento, o que

mostra a falta de apoio à medida. Seguidores do presidente Evo

Morales haviam decidido boicotar a votação.

Segundo apurações preliminares dos meios de comunicação, o

"sim" à autonomia conseguiu 86 por cento dos votos, contra 14

por cento para o "não".

"Achamos que (a abstenção) ficará acima de 40 por cento.

Santa Cruz está dividida -- 50 por cento que se abstiveram,

votaram contra, nulo ou branco, e 50 por cento que votaram

'sim"', disse Rada a uma TV local.

O Departamento Eleitoral de Santa Cruz (encarregado da

apuração, já que a Justiça nacional considerou o referendo

ilegal) ainda não divulgou dados oficiais.

Morales disse na noite de domingo que a consulta foi um

fracasso, qualificando-a de ilegal e separatista.

A votação foi marcada por violência, com dezenas de feridos

em choques entre seguidores do governo e oposicionistas, que

usaram paus e pedras para defender os locais de votação.

Também no domingo, centenas de milhares de pessoas saíram

às ruas em várias cidades do Altiplano (oeste) contra o

referendo em Santa Cruz.

Outros três Departamentos do leste do país pretendem

realizar referendos autonomistas nos próximos meses. A crise

mostra a polarização secular na Bolívia entre o oeste,

montanhoso e com grande população indígena, e o leste, uma

planície onde há maior presença de brancos.

Os empresários do Departamento, principais promotores da

autonomia, também se opõem ao plano de reforma agrária do

governo, que ameaça os enormes latifúndios da região.

A nova Constituição, aprovada numa assembléia controlada

pela bancada governista, e ainda a ser submetida a vários

referendos, estabelece mais poderes para a maioria indígena,

amplia o controle do Estado sobre a economia e cria um marco

jurídico para a política de nacionalização dos recursos

naturais promovida por Morales.

(Por Alejandro Lifschitz)