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Grupo de dieta em Jerusalém une judias e palestinas

22 de maio de 2008 | 12h 18
REBECCA HARRISON - REUTERS

Toda semana elas se reúnem para

monitorar o peso, trocar dicas sobre uma vida mais saudável e

falar dos maridos e filhos. Mas este grupo de dieta tem uma

diferença: é formado por palestinas e israelenses que se

dispõem a promover o diálogo a partir da luta comum contra a

balança.

"Eu nunca me senti bem comigo e com meu corpo, e isso é

algo contra o que todas as mulheres do mundo lutam", disse a

israelense de origem americana Yael Luttwak, uma cineasta que

fundou o grupo achando que assim poderia "reunir mulheres que

normalmente não se encontrariam".

Além das barreiras físicas entre Israel e a Cisjordânia,

uma desconfiança construída ao longo de décadas de conflito

também separa os dois grupos.

Luttwak criou o primeiro grupo de dietas de Jerusalém em

2007, para fazer um documentário intitulado "Uma Paz Magra".

Ela recebeu verbas de uma entidade beneficente britânica para

manter o trabalho, e o quarto curso acaba de começar.

Céticos podem argumentar que a paz entre palestinos e

israelenses ainda está muito distante e depende de fatores bem

mais complicados. Mas autores de iniciativas como essas

costumam dizer que elas funcionam porque levam o processo de

paz para um nível individual.

"Ponham tudo para fora: trabalho, notícias, crianças, o

marido, a falta de marido, o ex-marido", dizia a facilitadora

israelense Odelya Gertel-Kraybill, arrancando risadas das

participantes no início de uma sessão recente.

As mulheres de Israel há décadas se preocupam com o peso, e

ali surgiu uma das primeiras filiais da entidade Vigilantes do

Peso fora dos EUA. Já entre as palestinas tal tendência é mais

recente, mas cresce devido à influência da TV ocidental e da

taxa relativamente alta de obesidade na Cisjordânia e na Faixa

de Gaza.

"Antes, os únicos israelenses que eu conhecia eram os

soldados nos postos de controle. Eu achava todos brutos", disse

a estudante palestina Enas Smoom. "Mas no grupo esquecemos que

somos israelenses e palestinos -somos só mulheres falando de

nutrição".

CAMPO NEUTRO

Gertel-Kraybill e a nutricionista palestina Suha Khoury

comandam as discussões sobre nutrição e auto-ajuda.

Buscando um "campo neutro", as mulheres se encontram numa

escola internacional e só conversam em inglês. As palestinas

são moradoras da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental.

As mulheres falam da vida, dos parentes e de seus corpos, e

muitas vezes se surpreendem com o quanto têm em comum.

Mas nem tudo é tão leve. Em momento de maior tensão --após

um atentado ou ofensiva militar, por exemplo-- podem surgir

dificuldades.

"Eu fiquei brava porque as israelenses não entendiam como

as pessoas de Gaza estão sofrendo", disse Smoom. "Mas aí

algumas disseram ter filhos servindo no Exército, e eu percebi

que elas queriam proteger a si e suas famílias --assim como

nós".

Telma Schwartz, uma falante israelense de 55 anos, disse

que rapidamente fez amizade com as palestinas, mas não sabia

como abordar o espinhoso tema do serviço militar obrigatório

para os jovens de Israel.

Ela também se sente desconfortável falando dos militantes

palestinos que disparam foguetes contra cidades do sul de

Israel, região onde vive sua filha.

"Na hora certa eu falei, e me emocionei muito. Minha filha

estava irritada comigo por causa deste grupo. Ela queria que eu

dissesse aos palestinos sobre o terror na vida dela, mas eu

disse a ela que em Gaza eles também sofrem."

As mulheres não têm ilusões sobre a possibilidade de, em

dez semanas de reuniões, resolver um conflito que se arrasta há

60 anos. Na verdade, muitas delas não conseguiram nem perder

peso. Mas acham que o grupo de dieta pode alterar atitudes.

"Espero que as israelenses digam aos outros sobre as

palestinas que conheceram, que não eram só terroristas, mas

mulheres que estavam dispostas a conversar. Isso poderia não

resolver o processo de paz, mas nos ajudaria a nos vermos

mutuamente como seres humanos", disse a estudante Smoom.



Tópicos: ISRAEL, PALESTINA, DIETA