Irã continuará a enriquecer urânio a 20% mesmo com acordo, diz governo
Anúncio foi feito pouco depois de país firmar pacto de troca de material nuclear com Brasil e Turquia

Chanceleres (à frente) e presidentes celebram acordo em Teerã.
TEERÃ - O Irã vai continuar a enriquecer urânio a 20%, afirmou nesta segunda-feira, 17, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do país à agência Irna. A declaração foi dada pouco tempo depois de Teerã firmar um acordo com Brasil e Turquia para enviar a maior parte de seu urânio enriquecido e trocá-lo em território turco por material nuclear preparado para uso pacífico.
Em torno do acordo:
Irã, Brasil e Turquia fecham acordo para troca de urânio
Lula diz que acordo é vitória da diplomacia
Irã fala em retomar diálogo com potências
Amorim diz que acordo impede novas sanções
"Claro que o enriquecimento a 20% irá continuar em nosso próprio país", disse o porta-voz Ramin Mehmanparast. O Irã recebeu muitas críticas internacionais em fevereiro, após começar a enriquecer urânio a 20%, necessário como combustível em seu reator de pesquisas.
O processo de enriquecimento de urânio pode ser usado tanto para fins pacíficos como para um programa de armas nucleares. Potências lideradas pelos EUA temem que o Irã busque secretamente essas armas, mas Teerã alega ter apenas fins pacíficos. Para produzir uma bomba atômica, é preciso urânio enriquecido a mais de 90%.
Repercussão:
Brasil rebate críticas de Israel sobre acordo
AIEA deve validar acordo, dizem potências
Acordo não elimina, mas dificulta sanções
Reino Unido diz que Irã ainda causa 'preocupação'
No domingo, os ministros de Relações Exteriores do Irã, da Turquia e do Brasil assinaram um acordo sobre o programa nuclear iraniano na reunião do G-15 (17 países em desenvolvimento), em Teerã. O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, aceitou trocar 1.200 quilos de urânio por material nuclear (enriquecido a 20%) equivalente para seu reator de pesquisas médicas. O processo deverá se dar em território turco.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva considerou o acordo como uma "vitória da diplomacia". O Brasil, ao lado da Turquia, eram dois dos membros não permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) que rejeitavam a imposição de sanções contra o Irã por conta de seu programa nuclear e pediam mais diálogo.
O Irã já foi alvo de três rodadas de sanções no Conselho de Segurança por se recusar a interromper o enriquecimento de urânio. Os membros permanentes do órgão - EUA, França, Reino Unido, Rússia e China - negociam uma quarta rodada de sanções à República Islâmica. Chineses e russos, porém, mostram-se desfavoráveis às resoluções devido à boas relações comerciais que mantêm com os iranianos.
Diplomatas ocidentais próximos à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão regulador das atividades nucleares mantido pela ONU, afirmaram que o acordo não elimina as chances de serem aplicadas novas sanções, já que o Irã se recusa a interromper o enriquecimento de urânio. O pacto, porém, pode dificultar a ação do Conselho, já que Rússia e China podem se distanciar das negociações.
Especialistas:
GUTERMAN: O 'acordo' com o Irã: ouro de tolo
CHACRA: Ameaça de sanções ajudou acordo
O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, porém, informou que já planeja retomar o diálogo com as potências do Conselho de Segurança. "Espero que o 5+1 - Reino Unido, EUA, China, Rússia, França e Alemanha - participem das negociações com honestidade, respeito e justiça e deem sequencia ao grande trabalho iniciado em Teerã", disse ele, segundo a agência de notícias estatal iraniana.
Ainda sobre a adoção de sanções pendente, o ministro de Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, e o primeir-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, disseram que o acordo faz com que não sejam mais necessárias tais medidas.
PONTOS-CHAVE
Proposta da AIEA
Em outubro, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) propõe ao Irã enviar urânio para França e Rússia, que o devolveriam enriquecido o suficiente para pesquisas
Condenação
Em novembro, a AIEA condena o Irã por manter segredo sobre estação de Qom. Teerã diz que motivação é política e anuncia construção de dez novas instalações nucleares
Pressão americana
O presidente americano, Barack Obama, diz que a única forma de frear o programa nuclear iraniano é a adoção de novas sanções pela ONU ao país. Grã-Bretanha, e França reforçam esta posição
Defesa brasileira
Contrariando os EUA, o presidente Lula afirma que sanções prejudicariam somente o povo iraniano e defende o direito do Irã de levar adiante um programa nuclear pacífico

Com informações de Roberto Simon, de O Estado de S. Paulo, e das agências internacionais
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