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Lei antiimigração 'é insulto', diz eurodeputado

Deputado Paulo Casaca, do Parlamento Europeu, critica medidas contra imigração aprovadas nesta semana

20 de junho de 2008 | 20h 30
Caio Quero, do estadao.com.br

Eleito deputado do Parlamento Europeu pela primeira vez em 1999, o português Paulo Casaca é parte do Grupo do Partido dos Socialistas Europeus.Em entrevista por telefone ao estadão.com.br, ele criticou a aprovação de uma legislação que endurece o tratamento aos imigrantes pelos países do bloco e falou sobre os próximos desafios da União Européia. Acompanhe os principais trechos da entrevista.

 

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Qual a opinião do senhor a respeito do endurecimento das regras de imigração aprovadas pelo Parlamento Europeu na última quarta-feira?

 

O grande problema desta resolução, como escreveu em um artigo Jacques Delors (ex-presidente da Comissão Européia entre 1985-1995), é que não faz sentido nenhum começar a pensar a imigração logo pelo retorno destes imigrantes. Por que a primeira peça legislativa sobre imigração que passa pelo Parlamento Europeu trata do retorno, de mandar os imigrantes embora? Isso é ver os imigrantes como um problema e não como um ativo, como uma contribuição positiva à Europa.

 

Isto (a legislação) é um insulto à grande massa dos europeus que migraram ou que tiveram parentes que migraram para o Brasil, para a América e para a África.

 

A Europa tem uma enorme tradição de imigração e de repente o parlamento aprova um texto legislativo que considera isto um crime. É um insulto à nossa memória.

 

A decisão veio no bojo de outras ações contra a imigração tomadas por países membros como a Itália, cujo primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, anunciou no final de maio medidas para criminalizar a imigração. Existe um sentimento forte antiimigração entre os governos da Europa hoje? Porque isso acontece?

 

Em alguns países que enfrentam situações econômicas mais complicadas, e a Itália é um deles, existe esta tentativa de se encontrar bodes expiatórios. No lugar de se enfrentar os problemas, busca-se o alvo mais fácil, e o alvo mais fácil é o imigrante.

 

Eu gostaria de lembrar que o argumento de Berlusconi é justamente essa legislação européia, que já estava na forja e foi formalmente aprovada esta semana. O que Berlusconi fez à época que sugeriu sua política de imigração foi dizer aos italianos que eles tinham que se por à para da Europa.

 

Esta legislação talvez seja um sintoma maior de uma ausência de uma estratégia positiva para o desenvolvimento da Europa. Mostra um sentimento de 'Europa fortaleza', uma Europa voltada para si mesma, o que é de fato preocupante.

 

Na última semana o bloco europeu sofreu um forte baque após a vitória do 'não' no referendo sobre o Tratado de Lisboa na Irlanda. Quais podem ser as conseqüências deste 'não' para o bloco? Há uma distância entre os europeus comuns e as decisões dos dirigentes do bloco?

 

Eu acho que a tendência é que os principais líderes tentem encontrar uma solução para passar esse obstáculo irlandês, talvez com um novo referendo para o ano que vem.

 

Eu acho que depois destes episódios de referendos que negam alterações ao Tratado, temos repensar o processo e entender que a UE deve se dirigir aos cidadãos europeus com temas que realmente os interessam.

 

O problema é que ninguém se interessa por um tratado que é ilegível, composto de centenas de alterações de caráter muito diverso, algumas de caráter processual e outras com conteúdos difíceis de se entender. Isso não mobiliza os cidadãos.

 

Os europeus querem que sejam tratadas as questões que os ocupam no dia a dia, e isso não está na agenda política européia. Essa é a razão do 'não' irlandês e do baixo comparecimento dos eleitores no referendo.Há um alheamento geral da população.

 

O senhor faz parte da Delegação para as Relações com o Irã do Parlamento Europeu. Como vê a revelação nesta sexta-feira, 20, de que Israel teria feito exercícios militares visando um eventual ataque às instalações nucleares do país?

 

Eu acho que o a política que tem sido seguida pelo Ocidente em relação ao Irã é de apaziguamento, uma política que não quer ver a realidade.

 

Na prática, esta abordagem do Ocidente tem incentivado o regime iraniano a prosseguir uma política expansionista, não só em relação à energia nuclear.

 

Esta política vai afunilando as opções e acaba por obrigar estados como Israel, que tem sido ameaçado todos os dias pelo Irã, a tomar algumas medidas.

 

Eu não sei se o bombardeamento vai cumprir os objetivos pretendidos, mas o que me parece fundamental é que o Ocidente, e em particular a Europa, mude a política em relação ao país.